30% das famílias das classes D e E no Brasil passaram fome durante a pandemia, alerta Unicef


RIO – Novo levantamento do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) com o Ibope Inteligência mostra que as famílias brasileiras mais pobres, classes D e E, tiveram as piores quedas de renda e estavam em maior situação de insegurança alimentar devido à pandemia de Covid-19 . De acordo com o relatório, 30% dessas famílias pararam de comer em algum momento entre julho e novembro.

Além disso, entre todas as classes sociais, as famílias com crianças e adolescentes foram as mais afetadas: 61% viram a renda familiar diminuir. A insegurança alimentar e de renda ainda se refletiu em menos alunos com acesso às atividades escolares e mais crianças e adolescentes com sintomas relacionados à saúde mental.

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A segunda rodada da pesquisa “Impactos Primário e Secundário da Covid-19 em Crianças e Adolescentes”, lançada nesta sexta-feira (11), mostra que os impactos econômicos e sociais da pandemia se agravaram no segundo semestre. O relatório foi elaborado com base em 1.516 entrevistas com pessoas de todas as regiões do Brasil.

O aumento indica que a fome tem assombrado famílias da base da pirâmide socioeconômica brasileira com mais intensidade nos últimos meses. Segundo Florence Bauer, representante do UNICEF no Brasil, as famílias mais pobres ficaram mais vulneráveis ​​durante a crise de saúde.

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– De julho a novembro, o percentual de pessoas que declararam que pararam de comer porque não havia dinheiro para comprar mais alimentos passou de 6% para 13%. Isso é ainda mais grave entre as pessoas das classes D e E, nas quais 30% pararam de comer em algum momento porque não havia dinheiro para comprar mais comida – diz Bauer.

Famílias das classes D e E voltam a sofrer com a insegurança alimentar Foto: Daniel Marenco / Agência O Globo

Em todos os itens apresentados na pesquisa – renda, segurança alimentar, educação e saúde mental – o que já tinha menos foi o mais afetado. 15% das famílias mais pobres disseram que perderam toda a sua fonte de renda. Além disso, 69% dos entrevistados com renda de 1 salário mínimo viram sua renda diminuir, enquanto entre os que ganham mais de 10 salários era de apenas 35%.

Menos educação, mais riscos para a saúde mental

Florence Bauer também destaca que o agravamento da insegurança alimentar acaba tendo consequências mais negativas nas famílias com crianças e adolescentes. Nessas residências, destacam-se as pioras no acesso à educação e os casos de problemas de saúde mental. A proporção de domicílios onde seus filhos realizavam atividades escolares nos cinco dias da semana anteriores à pesquisa diminuiu de 63% em julho para 52% em novembro.

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Além disso, 13% das famílias responderam que as crianças e adolescentes não haviam realizado atividades escolares na semana anterior à pesquisa. Isso corresponde a 7 milhões de meninas e meninos. E entre as famílias que recebem até um salário mínimo, 42% deixaram de ter acesso à alimentação escolar durante a pandemia, agravando sua situação de vulnerabilidade social.

– Isso mostra que existe o risco de os alunos perderem o vínculo com a escola, agravando a exclusão, e reforça a urgência de reabrir as escolas com segurança – afirma Bauer.

Ainda de acordo com a pesquisa, 27% dos entrevistados relataram que os adolescentes em casa tinham mais insônia ou sono excessivo. Outros 29% relataram mudanças no apetite e 28% diminuíram o interesse nas atividades de rotina. No total, 54% das famílias afirmam que seus filhos adolescentes apresentam algum sintoma relacionado à saúde mental.