A bandalha já começou: Ministério Público de São Paulo quer pular fila de vacinação – 03/12/2020


É inacreditável, mas já era previsível.

A vacina ainda não chegou ao Brasil, o Ministério da Saúde está mais perdido do que um cachorro no dia da mudança, mas em São Paulo um grupo de promotores públicos já previu que vai pular a fila de vacinação.

O procurador-geral da Justiça, Mário Luiz Sarrubo, apoiou a iniciativa e se ofereceu para “se empenhar pessoalmente em apresentar este pedido ao governo do estado”.

A desculpa dada por vossos excelências é fofa, como diria Hebe Camargo:

“Não se trata de egoísmo em relação a outras carreiras, mas tendo em vista principalmente os colegas de primeiro grau, que trabalham com públicos, atendimento ao público e outras atividades em que o contato social é extremamente grande e faz parte do nosso dia a dia ”, diz a carta do promotor Roberto Barbosa Alves, que solicitou que a categoria fosse incluída em uma das primeiras etapas prioritárias da vacinação contra o covid-19.

“Que lindo!”, Dizia o narrador esportivo Milton Leite quando alguém pisa na bola.

Não se trata de egoísmo, promotores médicos, mas de um privilégio flagrante o que você está pedindo.

A temporada de piquetes está aberta

Se a moda pegar, por que não incluir na lista de exceções também os ilustres juízes, todos os funcionários dos fóruns, os jornalistas que cobrem as audiências e julgamentos, os catadores de lixo dos tribunais, os policiais militares que garantem sua segurança e os garçons do café?

Na República Corporativa do Brasil, onde todos reivindicam direitos e privilégios iguais, pedidos semelhantes logo aparecerão de oficiais das Forças Armadas, parlamentares, ministros, presidentes de estado, servidores dos Três Poderes e todas as categorias que foram preservadas nas reformas trabalhista e previdenciária .

Reportagem de Daniela Araújo, da Folha, informa que o pedido para pular fila foi feito em reunião do Conselho Superior do Ministério Público, no dia 24 de novembro, e consta de ata publicada no site da instituição.

Conforme determinação do Ministério da Saúde anunciada nesta semana, a vacinação contra o coronavírus deve começar com profissionais de saúde, idosos com mais de 75 anos, indígenas e maiores de 60 anos e residentes em asilos ou instituições psiquiátricas.

Em qual desses casos podem ser incluídos promotores de qualquer idade, que se aposentem antes do INSS, tenham assistência médica gratuita, assistência para tudo e possam viajar em carros oficiais com motorista?

Tudo o que eles precisavam fazer era declarar uma greve

O que eles querem, portanto, é simplesmente pular a fila, como dizem no popular, e dar uma banana a simples mortais que não têm acesso ao governador.

Nota do Ministério Público de São Paulo inclui promotores nos “segmentos da população mais vulneráveis ​​ao covid-19, tanto do ponto de vista médico quanto social” e garante que cumprirá o que for determinado pelas autoridades sanitárias.

O Ministério Público só faltou em cumprir o cronograma do Ministério da Saúde e decretou greve para a categoria.

Mais vulneráveis ​​do que são os milhões de moradores das favelas e ruas do Brasil, os balconistas que passam o dia atendendo ao público, os professores das escolas da periferia, os empregados domésticos e todos os que dependem do transporte público para trabalho, quando eles têm empregos.

Tapa na cara

Lendo esta notícia esta manhã em Twitter, Senti um tapa na cara.

Com 72 anos e 56 trabalhando como jornalista – essa é, sim, uma profissão de alto risco – vou esperar minha vez na fila, na segunda fase de vacinação, que ninguém sabe ainda quando vai começar no Brasil .

Se tivéssemos um governo, ninguém ousaria assinar uma carta como esta do Ministério Público, mas não tenho dúvidas de que conseguirão.

Achei que ninguém nem nada poderia me indignar, diante de tantas barbáries cotidianas.

Peço desculpas aos leitores por sua explosão, mas não posso mais ficar em silêncio.

A vida continua.