A desinformação também está ameaçando as eleições no Brasil


Depois de testemunhar o dilúvio de desinformação durante a difícil eleição presidencial dos Estados Unidos, os brasileiros estão se preparando nervosamente para suas próprias eleições municipais em 15 de novembro, com segundo turno cerca de duas semanas depois. Essas eleições são conseqüências: há 5.570 municípios no Brasil, e o que acontecer este mês pode moldar o cenário político para a disputa presidencial em 2022. Como os Estados Unidos, os brasileiros estão votando em meio a uma pandemia brutal, uma crise econômica cada vez mais profunda – e uma maré onda de propaganda digital enganosa e enganosa.

Desde a polêmica campanha presidencial de 2018, várias instituições públicas e plataformas de mídia social tomaram medidas para mitigar notícias falsas, boatos perigosos, discurso de ódio e difamação. Mas embora a nova legislação e regulamentação possam fazer a diferença nas próximas eleições, exemplos recentes de desinformação são a prova de que seus riscos para a democracia no Brasil são muito reais.

O Brasil é uma grande potência de mídia social por qualquer padrão. Aproximadamente 140 milhões dos 212 milhões de cidadãos do país são usuários ativos das redes sociais. Tem um dos maiores grupos de usuários do Facebook e Instagram do mundo. Também há um número considerável de seguidores no Twitter e no Youtube, e o país está experimentando um rápido aumento no número de assinantes do TikTok. No Brasil, como em outros países, as eleições são moldadas pelo domínio digital. A maioria dos candidatos políticos tem contas e são usuários ativos de uma ou mais dessas plataformas.

A corrida presidencial de 2018 reforçou profundas fissuras políticas no Brasil, tanto online quanto offline. Campanhas implacáveis ​​de mídia social no Facebook e correspondências em massa em ferramentas criptografadas como o WhatsApp foram imensamente polarizadas. Os brasileiros rapidamente se dividiram em vários campos, incluindo partidários radicais do presidente Jair Bolsonaro e uma oposição fragmentada que abrange o centro e a esquerda. Grupos com ideias semelhantes ficam isolados uns dos outros online, reforçando as câmaras de eco.

O general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional do governo, acusa, sem provas, a Articulação Indígena do Brasil de coordenar o site defundbolsonaro.org, afirmando que o site tem como objetivo divulgar notícias falsas sobre o presidente.

Hoje, a mídia social é um campo de batalha no qual os políticos alavancam suas multidões digitais para obter vantagens políticas, e a vasta maioria do conteúdo ofensivo em circulação é propagado por indivíduos com simpatias de extrema direita. No Rio de Janeiro, o prefeito Marcelo Crivella, que tem o apoio do presidente, costuma usar as redes sociais para atacar seus rivais, incluindo o ex-prefeito Eduardo Paes. Crivella e Bolsonaro são adeptos da mobilização de seus seguidores para a causa: entre 9 e 21 de outubro de 2020, por exemplo, foram registradas cerca de 3.400 postagens caluniando Paes no Facebook, em grupos públicos e perfis verificados, gerando mais de 1 milhão de interações e 4,2 milhões de visualizações.

Em São Paulo, a campanha do candidato a prefeito Celso Russomano recentemente compartilhou um vídeo no WhatsApp acusando falsamente o candidato de esquerda Guilherme Boulos de estar conectado a um prédio de ocupação irregular que desabou vários anos antes. Russomano também é apoiado pelo Bolsonaro. Segundo a agência Aos Fatos, das 44.052 postagens no Facebook relacionadas às eleições municipais de São Paulo na última semana de outubro de 2020, 4.675 foram consideradas falsas – e 2.492 foram vinculadas ao candidato Guilherme Boulos.

A extensão da desinformação é particularmente preocupante, dados os esforços já feitos para conter a propagação. Na verdade, depois que surgiram relatos de abusos generalizados no Facebook e no WhatsApp durante as eleições presidenciais de 2018, o estado brasileiro entrou em ação. Especificamente, uma Comissão Parlamentar Conjunta de Inquérito (CPMI) expôs um “gabinete de ódio” dirigido por Carlos Bolsonaro, um dos filhos do presidente. Esse gabinete de ódio supostamente supervisionou uma ampla rede de blogs e perfis de mídia social espalhando ativamente desinformação e ameaçando oponentes, inclusive via YouTube, Facebook, WhatsApp e Instagram.

Não surpreendentemente, os alvos do gabinete de ódio incluíam jornalistas, políticos, artistas e meios de comunicação convencionais considerados críticos do presidente e de seus seguidores. Uma investigação paralela também foi iniciada pela Polícia Federal para descobrir os responsáveis ​​pela organização e financiamento de manifestações contra o Supremo Tribunal Federal. Mais uma vez, Carlos Bolsonaro foi apontado como coordenador online. As investigações estão em andamento e patrocinadores financeiros conhecidos estão sendo identificados. Mesmo assim, o mais jovem Bolsonaro continua a espalhar mentiras nas redes sociais. Seu irmão, o deputado Eduardo Bolsonaro, também usou as redes sociais para espalhar dúvidas, sem provas, sobre a justiça da eleição americana.

Isso continua apesar do lançamento do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 2019 de um programa de “combate à desinformação nas eleições de 2020” para evitar que tais eventos ocorram antes da votação. O programa inclui parcerias com cerca de 50 instituições públicas e privadas, plataformas de mídia social e grupos de verificação de fatos. Facebook, Instagram, WhatsApp, TikTok e Twitter assinaram acordos destinados a aumentar os canais de subordinação direta ao TSE, aumentar a conscientização sobre desinformação e desinformação entre os usuários e melhorar a alfabetização digital dos funcionários da justiça eleitoral. Essas mesmas plataformas também estão aumentando a moderação de conteúdo para limitar as travessuras online.

Embora promissoras, essas medidas são apenas o começo de uma estratégia para diminuir a prevaricação digital. Isso porque as campanhas de desinformação não estão apenas profissionalizando, mas também avançando para novos canais, principalmente os criptografados. Depois que o WhatsApp introduziu regras que limitam o número de mensagens que podem ser compartilhadas em massa, o Telegram – que ainda não assinou nenhum acordo com o TSE – agora é considerado um dos principais vetores de conteúdo de extrema direita no Brasil. Em alguns casos, notícias falsas e conteúdo extremista também estão sendo testados em plataformas de vídeo como o Youtube.

Para serem eficazes, as estratégias para interromper a desinformação e o conteúdo extremo precisam ser abrangentes. Isso começa com a identificação dos atores e das táticas usadas por esses grupos, conforme demonstrado recentemente pela Election Integrity Partnership nos Estados Unidos.

Até o momento, a maioria dos esforços para remover conteúdo ofensivo está concentrada em plataformas específicas: como mostra o caso brasileiro, sempre existe o risco de que algumas empresas de tecnologia se recusem a jogar bola. Nesses casos, os governos precisarão introduzir regras para incentivar a cooperação e punir a deserção. As empresas de mídia social também precisarão atualizar cuidadosamente suas políticas de remoção de conteúdo. Não fazer isso não é apenas perigoso para as eleições, é fatal para a democracia.

Muggah (@robmuggah) é cofundador da Instituto Igarapé e principal do Grupo SecDev. Ele obteve seu PhD na Universidade de Oxford. Ele é autor de Terra Incognita: 100 mapas para sobreviver nos próximos 100 anos com a Penguin / Random House. Francisco (@papfrancisco) é pesquisador do Instituto Igarapé e Doutorando em Antropologia Cultural, no Rio de Janeiro, Brasil. Hurel (@LouMarieHSD) é pesquisador do Igarapé Institute e PhD Candidate na London School of Economics (LSE).

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