A maior cidade do Brasil pode em breve ter um prefeito socialista


No dia 15 de novembro, o ativista pelo direito à moradia e estrela em ascensão da esquerda brasileira Guilherme Boulos chegou ao segundo turno das eleições para a prefeitura de São Paulo – a maior cidade de todas as Américas e o centro financeiro do Brasil. Membro do Partido do Socialismo e Liberdade (PSOL), Boulos concorreu ao lado da candidata a vice-prefeito Luiza Erundina, uma socialista veterana que nos anos 1980 foi a primeira prefeita de São Paulo.

Com escassos recursos e regras eleitorais contra seu partido, Boulos derrotou o candidato da extrema direita apoiado por Bolsonaro, Celso Russomanno, para o segundo lugar. A virada também significa que o segundo turno terá uma virada acentuada para a esquerda, deixando de fora a influente Jilmar Tatto do mais social-democrata Partido dos Trabalhadores (PT).

As conclusões a serem tiradas da vitória de Boulos são várias. Por um lado, provou que uma plataforma radical de esquerda pode superar as forças de extrema direita tanto nas redes sociais quanto nas ruas. Tão importante quanto, o sucesso de Boulos sugere que a velha dicotomia pró-Lula / anti-Lula que tanto dividiu a esquerda brasileira nos últimos anos pode finalmente estar chegando ao fim.

Independentemente de Boulos conseguir chegar ao segundo turno de 29 de novembro, quando enfrentará o candidato de centro-direita do Partido Social-Democrata (PSDB), Bruno Covas, sua campanha tem sido um sucesso absoluto. Ele mudou as placas tectônicas da política brasileira e apresentou uma alternativa estratégica, tecnológica e ideológica que poderia muito bem abrir o caminho para a esquerda brasileira.

Ainda não tem quarenta anos, Boulos é uma estrela em ascensão na política brasileira. Ele ganhou fama pela primeira vez em 2003 quando, como líder do Movimento dos Trabalhadores Sem-teto (MTST), ocupou um terreno abandonado da Volkswagen no icônico bairro industrial de São Bernardo do Campo, em São Paulo. Foi lá também que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva escreveu pela primeira vez seu nome nos livros de história como o líder das greves de massa que derrubaram a ditadura militar brasileira em 1985.

A ousadia da ação de Boulos – em um momento em que Lula já havia chegado ao poder e era festejado entre os trabalhadores – o lançou para o centro das atenções e para o centro de uma corrente política ainda em seus primeiros estágios de desenvolvimento: a oposição de esquerda ao governo do PT.

Vários anos depois, um grupo de supostos radicais do PT – que em breve seriam fundadores do PSOL – foi expulso do partido Lula, e os movimentos sociais começaram a criticar mais fortemente a administração do PT. Boulos garantiu sua reputação, não apenas por seu trabalho na crise imobiliária, mas também na questão cada vez mais séria do déficit orçamentário do Brasil (que continua sendo um problema até hoje).

O governo do PT trouxe avanços significativos para o Brasil, mas Boulos continuou a apontar que milhões de brasileiros, cerca de 15% da população, ainda não tinham moradia e eram obrigados a viver nas ruas ou em arranjos temporários e precários nos grandes centros urbanos . A demanda por moradias era o cartão de visita de Boulos e, com ela, ele liderou inúmeras ocupações de prédios abandonados em protesto por moradias públicas.

A estrela de Boulos continuou a subir quando milhões de brasileiros foram às ruas em 2013–14. O MTST, até então um movimento bem estabelecido e organizado, foi um dos poucos movimentos sociais que conseguiu mobilizar grande número de pessoas para aderir aos protestos e, além disso, um dos poucos que passou ativamente a enfrentar os protestos. movimentos certos que estavam tomando forma naquele momento.

Em parte pela necessidade de fortalecer suas próprias organizações e se diferenciar do PT, a extrema esquerda brasileira fez duras críticas ao governo Lula e se firmou em uma oposição mais ou menos sistemática ao partido governista. Ao mesmo tempo, inúmeras organizações de esquerda continuaram a seguir um plano igualmente rígido de obediência inquestionável ao governo Lula.

Boulos trilhou um caminho diferente que em grande parte escapou à linha de falha anti-Lula / pró-Lula. Isso já ficou evidente durante as manifestações de 2013-2014, quando Dilma Rousseff, a sucessora de Lula, se viu cercada por todos os lados, e a direita tradicional brasileira iniciou os preparativos para sua derrubada – mesmo que isso significasse aliar-se à extrema direita e aos militares.

Boulos e o MTST se encontraram novamente nas ruas protestando contra o movimento golpista em 2016. No entanto, Boulos pretendia que a mobilização forçaria o governo a implementar medidas de esquerda e, em última instância, reconquistar a confiança prejudicada da classe trabalhadora e movimentos sociais.

Quando Lula foi preso em 2018 pelo ex-juiz e ex-ministro da Justiça Sérgio Moro, Boulos e o MTST desempenharam um papel de liderança na luta contra sua prisão e, eventualmente, no movimento pela libertação de Lula. Isso lhe rendeu respeito nas fileiras do PT.

Em um ato carregado de simbolismo, o MTST ocupou o apartamento que Lula teria recebido como suborno em troca do que o então juiz Moro descreveu como “atos indeterminados” (Lula nunca havia morado no apartamento e só fazia visitas esporádicas). A ocupação do MTST revelou ao público que o apartamento não era o condomínio de luxo descrito na mídia, nem havia evidências das reformas prediais supostamente encomendadas por Lula. Ao fazer isso, o MTST desmascarou a principal narrativa por trás da perseguição legal de Lula.

Finalmente, após décadas de conflito com o PT, a extrema esquerda, ainda lambendo as feridas do golpe de 2016 e da subsequente vitória de Bolsonaro, se vê obrigada a unir forças com seu antigo adversário. Boulos está presente como a figura capaz de trazer unidade à esquerda. É nesse mesmo sentido que Boulos se tornou uma figura central nas atuais eleições.

A cada quatro anos, os mais de cinco mil municípios do Brasil votam para seus prefeitos e vereadores – milhares de eleições locais ocorrendo simultaneamente, em municípios tão distantes como a Amazônia e tão metropolitanos quanto São Paulo.

Em meio à crise em curso do governo Bolsonaro mais a pandemia global, as perspectivas para a política brasileira são incertas. Em São Paulo, onde Bolsonaro varreu o campo nas eleições presidenciais de 2018, uma orgulhosa tradição de sentimento anti-esquerdista – especialmente em áreas prósperas – está sendo corroída por um sentimento avassalador de desencanto com o presidente.

De fato, embora São Paulo tenha historicamente votado em candidatos de direita nas eleições nacionais, sempre esteve dividido nas eleições municipais, oscilando entre populistas de direita e de esquerda, geralmente sob a tutela do PT.

Além do mais, onde as eleições locais podem muitas vezes impactar a política nacional, São Paulo tem uma influência descomunal. Foi em São Paulo, em 2016, que o ex-ministro Lula Fernando Haddad perdeu a reeleição em uma disputa contra o tradicional candidato de centro-direita João Doria, do PSDB. Apesar do nome, o PSDB tem sido o partido neoliberal de centro-direita mais importante do Brasil, tendo governado o país por oito anos (1995-2002) sob Fernando Henrique Cardoso.

Essa derrota não impediu Haddad de disputar as eleições presidenciais de 2018 como candidato titular de Lula, que na época estava preso. Doria deixou o cargo de prefeito para se candidatar a governador no mesmo ano, vencendo no estado de São Paulo.

O vice-prefeito de Doria, Bruno Covas, havia assumido entretanto a posição de prefeito, seguindo uma linha moderada e centrista semelhante à do PSDB durante os anos 1980 (isto é, antes de se tornar a oposição populista de extrema direita ao governo Lula que eventualmente abriu a caixa de Pandora da qual emergiu Bolsonaro).

Com Haddad fora da corrida para prefeito de 2020 para São Paulo, o partido de Lula escolheu a dedo Jilmar Tatto, um ex-deputado federal com força importante na zona mais pobre da Zona Sul de São Paulo. No entanto, Tatto foi muito criticado por ser um monótono apparatchik de festas.

Com Tatto inspirando pouco entusiasmo entre ativistas, intelectuais e artistas históricos do PT, figuras importantes do PT como Celso Amorim – o chanceler de Lula – e o icônico compositor Chico Buarque começaram a se aglomerar no PSOL.

Boulos venceu com folga as primárias do PSOL em uma disputa contra a deputada federal Sâmia Bomfim. A partir desse momento, a campanha de Boulos lançou uma estratégia de comunicação bem-sucedida nas redes sociais, compensando o pouco tempo de antena na televisão concedido pela legislação brasileira para partidos menores. Como o próprio Boulos, sua campanha se limitou a pontos de discussão firmes, apresentados de maneira informal e acessível, o que é uma grande parte de seu apelo amplo e o que o tornou um candidato tão competitivo. Isso ficou especialmente evidente quando Boulos travou uma guerra de palavras com o candidato apoiado por Bolsonaro, Celso Russomanno, conquistando-lhe ainda mais popularidade.

Nas eleições de domingo, 15 de novembro, o PSOL dobrou os votos na Câmara, embora ainda esteja atrás do PT, que, embora tenha registrado queda de votos, ainda mantém a maioria dos vereadores.

Significativamente, o PT de Lula expressou seu apoio ao candidato do PSOL no segundo turno. Embora Boulos tenha ficado em um distante segundo lugar para Bruno Covas na eleição geral (ganhando 20 por cento dos votos, onde Covas ganhou 32 por cento), a esquerda brasileira está se alinhando em massa atrás de Boulos e fazendo pesadas campanhas em seu nome em todo São Paulo. Pesquisas recentes sugerem que ele está pagando dividendos e Boulos está atualmente fechando a lacuna do candidato favorito, aumentando a perspectiva para o tipo de virada (“Chateado”) que sua companheira de chapa Luiza Erundina conquistou em 1988.

Com o extremo agora fora de cena e a presença marcante de Luiza Erundina como vice-prefeita (aos oitenta e cinco anos, ainda é uma poderosa militante), sem falar nos milhares de ativistas engajados, Boulos deu início fazer mais do que lutar pela prefeitura de São Paulo. Boulos representa uma visão em que não só é possível derrotar Bolsonaro; também é possível que a esquerda brasileira o faça sem ceder terreno ao centro neoliberal. Nesse sentido, mesmo que Boulos não consiga uma reviravolta histórica na próxima semana, ele entregou a vitória decisiva de que a esquerda brasileira tanto precisava.