A morte de duas meninas aumenta a indignação com o terrível número de vidas negras no Brasil | Brasil


TO tiro em duas jovens negras – que tinham entre elas menos de 11 anos de vida – gerou indignação no Brasil e intensificou o debate sobre a violência policial e o racismo estrutural em um país que ainda luta contra o legado da escravidão.

Emily Victoria Moreira dos Santos e Rebeca Beatriz Rodrigues Santos, primas de quatro e sete anos, foram mortas na noite de sexta-feira enquanto brincavam do lado de fora da casa de sua avó em Barro Vermelho, uma favela de tijolos vermelhos na periferia norte do Rio de Janeiro.

Suas mortes elevaram para oito o número de crianças mortas no Rio neste ano, quase todas negras, como a maioria das vítimas brasileiras de assassinato.

“Sinto-me arrasada, mas vou encontrar forças para lutar – pela Emily, pela Rebeca e por todas as outras meninas, porque a vida das negras importa”, jurou a mãe de Emily, Ana Lúcia Silva Moreira, que acredita que a polícia foi a responsável pela o tiroteio. “Eu não estava criando minha filha para que ela pudesse se tornar parte de uma estatística.”

Testemunhas afirmaram ter visto um policial atirar contra a comunidade por volta das 20h30 daquela noite, embora a Polícia Militar do Rio negue que seus agentes abriram fogo.

“É porque eles são covardes”, disse o tio da vítima, André da Silva Moreira, enquanto ele e sua irmã reviviam o crime na segunda-feira de manhã em uma praça perto de sua casa na cidade de Duque de Caxias.

Crianças segurando bonecos cobertos com sangue falso ficam ao lado de uma placa que diz em português ‘Pare de matar nossos filhos’. Fotografia: Bruna Prado / AP

“E porque também somos negros”, interrompeu Ana Lúcia, uma vendedora ambulante de 38 anos.

“Você sabe quais direitos nós temos neste país?” perguntou André, de 45 anos. “O direito de se tornar um pedaço de carne nas mãos de nossos governantes.”

Os disparos, parte de uma onda implacável de mortes de crianças em uma cidade inundada por rifles de alto calibre, gerou um clamor imediato.

Ex-presidente Dilma Rousseff bateu a “verdadeira carnificina” sendo desencadeada nas comunidades mais pobres do Rio pela “total falta de controle” da polícia. A filósofa negra Djamila Ribeiro declarou: “Este é um país genocida”.

Um dos protestos mais comoventes veio de Thiago Amparo, intelectual negro do público. “Chega um ponto em que as lágrimas não podem mais expressar nossa dor”, escreveu ele à Folha de S.Paulo, exigindo: “Quem vai responder pelo genocídio que está em curso?”

No domingo, dezenas de enlutados e ativistas se reuniram em Duque de Caxias carregando bonecos sufocados com sangue falso e faixas com os dizeres: “Pare de nos matar” e “Vidas Negras Importam”.

O governador interino do Rio, Cláudio Castro, prometeu um inquérito “rigoroso” sobre as mortes e disse ele defendia uma política de segurança baseada na inteligência e que buscava proteger vidas.

Cecília Olliveira, especialista em segurança pública e jornalista, disse que os assassinatos capturaram perfeitamente a futilidade e o preconceito racial da incessante “guerra às drogas” do Brasil, que ceifa milhares de vidas, em sua maioria negros, a cada ano.

“O que aconteceu com essas duas crianças, em um bairro predominantemente negro e pobre longe do centro do Rio, é a síntese do que o Brasil escolheu como política de segurança pública: o extermínio de invisíveis e aspas ‘indesejáveis’”, disse Olliveira. disse.

As estatísticas deixam claro a distorção racial do derramamento de sangue.

Alexsandro dos Santos, ao centro, é ajudado por amigos durante o enterro de sua filha Emily Victoria Silva dos Santos, de quatro anos de idade /
Alexsandro dos Santos, ao centro, é ajudado por amigos durante o enterro de sua filha Emily Victoria Silva dos Santos, de quatro anos de idade / Fotografia: Silvia Izquierdo / AP

Cinquenta e seis por cento dos 211 milhões de cidadãos brasileiros se identificam como negros ou pardos, mas no ano passado quase 80% dos mortos pela polícia e 75% das vítimas de assassinato eram negros.

Uma das vítimas mais recentes foi João Alberto Silveira Freitas, 40 anos, pai de quatro filhos, que foi espancado até a morte por seguranças em frente a um supermercado Carrefour em Porto Alegre na véspera do Dia da Consciência Negra no Brasil. Esse ataque horrível, que foi filmado, gerou protestos de rua em várias cidades importantes e foi comparado ao assassinato de George Floyd nos Estados Unidos.

Flávia Oliveira, uma proeminente locutora negra, classificou esses assassinatos como parte do “legado tóxico da escravidão” em um país que foi a última nação ocidental a abolir a prática, em maio de 1888.

O fracasso do Brasil em oferecer educação, terra ou compensação a centenas de milhares de escravos recém-emancipados significou que, mais de 130 anos depois, profundas desigualdades persistiram, com os brasileiros negros ganhando menos, vivendo pior e sendo mortos com mais frequência do que seus colegas brancos. “O Brasil continua sendo um país que se baseia nos privilégios dos brancos”, disse Oliveira.

Olliveira, a especialista em segurança, disse não ter dúvidas sobre a dimensão racial dos assassinatos de João Alberto, Emily e Rebeca.

“O que esses casos nos dizem, em termos tão descarados e claros, é que a vida dos negros não importa no Brasil”, disse Olliveira, rejeitando as recentes afirmações do vice-presidente do país, Hamilton Mourão, de que o racismo não existia.

Parentes de Emily e Rebecca também zombaram dos comentários de Mourão enquanto se reuniam para exigir justiça para as meninas, que foram baleadas na cabeça e no peito e cujos momentos finais são horríveis demais para descrever.

As meninas são enterradas no cemitério de Nossa Senhora das Graças, em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, no final de semana.
As meninas são enterradas no cemitério de Nossa Senhora das Graças, em Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, no final de semana. Fotografia: ONG Rio de Paz / AFP / Getty Images

“Ela ia fazer cinco anos no dia 23 de dezembro”, disse Ana Lúcia Silva Moreira sobre a filha, lembrando que comprou para Emily uma fantasia de princesa Moana Disney para a festa que tinham planeado. Em vez disso, ela foi enterrada ali na tarde de sábado, em uma cova de concreto velha.

A avó de Rebeca, Lídia da Silva Moreira Santos, disse que acabava de voltar para casa de um turno de 12 horas no hospital onde faz a limpeza de uma enfermaria Covid-19 quando ouviu tiros de arma de fogo que vinham da polícia.

“Ela era minha única neta … minha carne e sangue – e eles a tiraram de mim da forma mais ridícula, cruel e bruta possível. Eles não tinham o direito de fazer isso ”, disse o homem de 51 anos. “É uma loucura – simplesmente uma loucura.”

As duas meninas sorriam da camiseta branca de Santos, estampada em memória de jovens que ela considerava suas “princesas”. “Emily e Rebeca”, leia a homenagem abaixo, “Palavras não podem expressar a tristeza que sinto agora.”