A pesquisa busca entender por que existem idosos centenários que nem apresentam sintomas enquanto jovens morrem de Covid

RIO – Parouhi Darakjian Kouyoumdjian teve dengue e Covid-19 simultaneamente, mas apresentou sintomas mais consistentes com a forma leve da primeira. E ele se recuperou bem. Ainda mais raro do que o nome da Sra. Parouhi foi seu surpreendente caso de coinfecção, especialmente se for levado em conta que ela tem um século de vida.

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Ela adoeceu em agosto passado, mas seu caso continua a interessar os cientistas. Eles procuram suas células e genes em busca de pistas para combater a pandemia. A sra. Parouhi, de São José do Rio Preto (SP), está entre os centenários estudados pela Universidade de São Paulo (USP) para identificar porque algumas pessoas aparentemente frágeis se infectam e nem apresentam sintomas, e outras, jovens e fortes , morrem Covid-19, sem fatores de risco conhecidos e mesmo que tenham acesso a bons cuidados.

É nesses extremos da pandemia que a ciência busca descobrir os pontos fracos do coronavírus. Sars-Cov-2 é um assassino em massa, mas deixa os flancos expostos, visíveis mais facilmente em casos de resistência ou susceptibilidade extrema.

A pesquisa, liderada pela geneticista Mayana Zatz, coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano e Células-Tronco da USP, investiga genes que podem tornar as pessoas mais resistentes ou vulneráveis ​​ao coronavírus.

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O estudo está em andamento, mas com base em dados epidemiológicos apresentados recentemente, Zatz está convencido de que as pessoas resistentes são mais frequentes do que as suscetíveis a agravos.

O problema é que, mesmo assim, existem milhões de pessoas vulneráveis ​​e até o momento não há como identificá-las. Nem é fácil encontrar o resistente porque não há como saber quem foi ou não exposto, devido à baixa testagem no Brasil.

– Centenários com PCR positivo são claramente resistentes, assim como jovens sem comorbidades que faleceram. É por isso que os estudamos – diz Zatz.

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As características genéticas e imunológicas influenciam a forma como uma pessoa reage às infecções em geral. Isso é conhecido no caso da AIDS e da dengue hemorrágica, por exemplo. Os casos de resistência ao HIV estão associados a uma mutação específica no gene CCR5, que bloqueia o vírus.

Mas a Covid-19 parece ser ainda mais complexa, enfatiza Zatz. Não apenas um, mas um conjunto de genes explicaria o fato de centenários, alguns com comorbidades, além da idade avançada, terem escapado ilesos do coronavírus. Nem a vulnerabilidade estaria associada a um único gene.

Identificar essas características promete revelar os mecanismos fundamentais da Covid-19 e as formas de combatê-la, abrindo caminho para o desenvolvimento de novas vacinas e medicamentos. Ele também tem aplicações mais imediatas:

– Queremos entender, por exemplo, a resposta à vacina. Por que algumas pessoas produzem mais anticorpos do que outras, por exemplo – explica ele.

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Além de centenários sobreviventes e jovens que morreram, a pesquisa investiga mais de 80 nonagenários que foram curados ou mesmo manifestaram sintomas de Covid-19, embora fossem positivos; 100 dos chamados casais discordantes, definidos como aqueles em que um dos cônjuges adoeceu gravemente ou morreu e o outro não tinha nada; e gêmeos igualmente expostos ao coronavírus.

O estudo com jovens que morreram da doença sem nenhuma comorbidade, com 45 indivíduos até o momento, é feito em parceria com o grupo de Paulo Saldiva, professor titular do Departamento de Patologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP )

Os centenários parecem frágeis, mas são o grupo mais difícil. Eles podem enfrentar qualquer desafio do meio ambiente, diz Zatz. Seu grupo estuda 13 centenários. O objetivo é, além de sequenciar seu genoma, multiplicar suas células em laboratório, obter células-tronco e estudar sua resposta ao Sars-CoV-2, incluindo variantes.

A Sra. Parouhi foi uma das primeiras participantes. Ela nasceu no que hoje é a Armênia, mas chegou ao Brasil aos 6 anos, fugindo do massacre de armênios pelos turcos. Seu filho mais novo, o médico João Aris Kouyoumdjian, 67, conta que a mãe passou fome e passou por muitas dificuldades, mas sempre teve saúde de ferro.

– Ela continua muito bem, ela tem apenas alguns problemas de visão e audição naturais com o envelhecimento. Você já tomou as duas doses da vacina. Nada a assusta, mas ela está ansiosa pelo fim da pandemia – diz Kouyoumdjian.

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Sua mãe já deu uma contribuição especial para o combate à pandemia, dando amostras de pele para extrair células. Outra centenária do estudo é uma mulher de 106 anos que sobreviveu à gripe espanhola (1918/19) e ao Covid-19 em 2020.

Há também uma mulher de 104 anos que não tem rim e não foi por isso que Covid-19 piorou. Ainda mais surpreendente é uma mulher paraibana de 114 anos. Ela morreu no ano passado de causas não relacionadas à pandemia e era uma das pessoas mais velhas do mundo. Na verdade, de acordo com Zatz, ele foi a pessoa mais velha a sobreviver ao Covid-19.

– Esta senhora é um caso incrível. Normalmente, as células retiradas da pele para cultivo em laboratório morrerão se não forem congeladas em algumas horas. Demorou cinco dias para chegar a São Paulo e não só não morreram, mas foram excepcionalmente ativos – diz Zatz.

Em uma segunda etapa do trabalho, Zatz planeja ver como os resistentes respondem à vacina.

– Eles podem ter uma resposta diferente. Eles produzem mais anticorpos mesmo com uma única dose? Isso precisa ser investigado – frisa ela.

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Para testar essa possibilidade, o grupo USP busca firmar parceria com o Instituto Butantan, que produz o CoronaVac.

Zatz está animado com o fato de os casos de mulheres resistentes serem mais frequentes do que eles pensavam. Ela diz que não teve problemas para encontrar os chamados casais discordantes.

– Ninguém está mais exposto ao vírus do que o cônjuge ou companheiro de alguém infectado. Portanto, é relevante que uma pessoa adoeça ou morra e seu parceiro não tenha nada. Já fomos contatados por mais de mil pessoas de todo o país nessa situação e os e-mails dos interessados ​​em participar do estudo continuam chegando – destaca.

O geneticista lembra o caso de um homem de 72 anos que adoeceu gravemente, mas cuja esposa e mãe de 98 anos, que mora com o casal, não tinham nada.

Quase sempre, o cônjuge saudável de uma pessoa gravemente doente nem mesmo tem anticorpos. Dos 100 casais analisados, apenas 5% dos cônjuges que não adoeceram tinham anticorpos. E dois terços dos cônjuges que não adoeceram são mulheres.

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Impossível esquecer filhos

Em jovens que pioram terrivelmente e morrem de Covid-19, mesmo sem comorbidades conhecidas, os cientistas especulam que pode haver uma resposta imunológica deficiente controlada por uma configuração genética desfavorável à defesa contra o coronavírus.

O trabalho da equipe integrada por Paulo Saldiva, com Marisa Dolhnikoff e Renata Monteiro, é pioneiro em autópsias não invasivas de vítimas de Covid-19. Eles procuram os mortos em busca de informações que salvem vidas.

– Nunca é fácil. Impossível se acostumar com autópsias de crianças. Nosso grupo é o que mais publicou estudos com autópsias cobiçadas no mundo, mais de 110 autópsias. É uma espécie de estudo trágico e necessário – frisa.

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Entre o grupo inicial de 45 jovens vítimas autopsiadas de Covid-19 estavam quatro mulheres grávidas, dois bebês de mães com Covid-19, seis crianças menores de 12 anos. Os estudos estão em andamento, mas Saldiva acrescenta que o sequenciamento genético de dois de essas crianças já revelaram que não só não tinham nenhuma doença diferente de Covid-19, como também não tinham nenhuma variação genética conhecida associada à vulnerabilidade.

– A gente vê tanta gente ficar doente porque quando o coronavírus circula mais acaba encontrando gente que tem polimorfismo desfavorável. Retomamos as autópsias e estamos fazendo uma espécie de mapeamento do Covid-19, aparentemente tem marcas próprias – diz Saldiva.

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Agulha no palheiro

Zatz acrescenta que estudos nos Estados Unidos indicaram que existem pelo menos três genes – todos eles do sistema imunológico – que podem estar associados a uma maior vulnerabilidade. A resistência pode ser ainda mais complexa. Há indícios de que o chamado sistema HLA está envolvido, diz Zatz.

O sistema HLA é crucial nas defesas. É ele quem identifica e reage aos invasores, como os vírus. Mas caçar mudanças no HLA é como procurar uma agulha em um palheiro. Seus genes, seis principais e mais de 100 relacionados, estão no cromossomo 6, e há mais de 22.548 alelos (formas como um gene pode aparecer) conhecidos. Mutações nesses genes estão associadas a várias doenças autoimunes, como lúpus e diabetes tipo 1.

– Este é um estudo de longo prazo que pode nos ajudar a combater essa e a próxima pandemia – enfatiza Zatz.

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