A recente eleição do Brasil foi um golpe para Jair Bolsonaro


Embora tradicionalmente rápida e eficiente, a contagem dos votos eletrônicos das eleições municipais locais do Brasil no último domingo foi atrasada em mais de três horas e meia. No entanto, esse desenvolvimento alarmante não impediu que o ânimo geral do eleitorado se tornasse claro bem antes da meia-noite: o presidente Jair Bolsonaro e a extrema direita sofreram as piores derrotas do dia.

Sete prefeitos de grandes capitais foram eleitos de forma definitiva, evitando um segundo turno, inclusive em Florianópolis e Curitiba, na zona sul; Belo Horizonte, no sudeste; Salvador e Natal, no nordeste; e Campo Grande e Palmas no centro-oeste. Cada um desses prefeitos veio de partidos de direita, mas nenhum foi apoiado diretamente pelo presidente e seus filhos.

Das vinte e sete capitais estaduais, dezoito realizaram eleições para prefeito. Apenas três tiveram candidatos diretamente identificados com o presidente neo-fascista; estes incluíam Capitão Wagner em Fortaleza no estado nordestino do Ceará, Delegado Pazolini em Vitória no estado sudeste do Espírito Santo, e no Rio de Janeiro, onde o atual prefeito Marcelo Crivella, o bispo da Igreja Universal do Reino de Deus, está concorrendo à reeleição. Os resultados indicam que apenas Pazolini pode sair vitorioso no segundo turno (o atual Crivella foi para o segundo turno com apenas 21,86% dos votos).

Em outras palavras, o eleitorado brasileiro substituiu a extrema direita pela direita mais tradicional. Prefeitos de direita que “seguiram a ciência” voltaram ao cargo, ou pelo menos conseguiram chegar ao segundo turno. Esses prefeitos conservadores promulgaram várias medidas, como fechamento de escolas e academias, encorajando o uso de máscaras e promulgando ordens de distanciamento social, todas as quais Bolsonaro se opôs vigorosamente com ameaças de processo, grosseiros pronunciamentos públicos e até mesmo a demissão de seus próprios ministros. No conflito aberto entre Bolsonaro e governadores estaduais sobre a pandemia – que matou 165 mil brasileiros e infectou mais de 5 milhões – a extrema direita sofreu um golpe.

Apesar dos resultados sólidos para os adversários do Bolsonarismo, a situação em geral continua bastante reacionária. Resta um sentimento anti-Partido dos Trabalhadores / anti-esquerda profundamente enraizado entre as classes médias (que foram amplamente conquistadas para a ideia de que o partido era particularmente corrupto durante os três mandatos e meio de Lula e Dilma Rousseff), e os neo -As igrejas pentecostais, aliadas ao presidente, têm ampla influência entre as camadas mais pobres da população. No geral, os partidos de esquerda perderam assentos tanto no nível de prefeito quanto no conselho municipal.

Ainda assim, os resultados das eleições demonstraram que a esquerda brasileira está muito viva e o dia da eleição trouxe algumas vitórias encorajadoras.

Os candidatos da oposição competiram em nove das dezoito capitais que realizaram uma eleição. Três eram do Partido Socialista Brasileiro (PSB, partido mais de centro do que de esquerda), inclusive em Recife e Maceió (no nordeste) e Rio Branco (na Amazônia no norte). Em duas capitais importantes (São Paulo e a cidade amazônica de Belém), o partido de esquerda pelo Socialismo e Liberdade (PSOL) chegou ao segundo turno. Mais duas são do PT, incluindo Vitória (no Espírito Santo) e Recife, e duas são do social-democrata Partido Democrático Trabalhista (PDT), em Fortaleza e em Aracaju (Nordeste). Em Porto Alegre, a jovem candidata do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Manuela D’Ávila, conquistou uma vaga no segundo turno.

Nas vinte e cinco maiores cidades (das cinquenta e cinco realizadas eleições), o PT elegeu quarenta e oito vereadores, sendo vinte e dois mulheres, e o PCdoB conquistou vereadores em seis cidades. O PSOL elegeu vereadores em doze das vinte e cinco maiores cidades (trinta e três eleitos ao todo, dezessete mulheres, a maioria delas negras). Entre eles estão as duas primeiras pessoas trans eleitas no Brasil, incluindo Linda Brasil, que obteve o maior número de votos de qualquer vereador em Aracaju, e o candidato negro transgênero Benny Briolly de Niterói no Rio de Janeiro. Ao lado desses candidatos, dois vereadores abertamente eco-socialistas venceram suas disputas. O PSOL também conquistou a prefeitura em cinco pequenas cidades: Ribas do Rio Pardo (no estado de Mato Grosso do Sul), Potengi (no Ceará), Janduís (no Rio Grande do Norte) e Marabá Paulista (em São Paulo).

Talvez o resultado mais surpreendente tenha sido o sucesso do PSOL na maior cidade do Brasil, São Paulo. Depois de ingressar no PSOL em 2018 para disputar a presidência, Guilherme Boulos, ativista e líder do Movimento dos Sem-Teto (MTST), junto com sua companheira de chapa, a ex-prefeita de São Paulo Luíza Erundina, tiveram uma votação de pouco mais de 4% em a corrida do prefeito em setembro. No dia da eleição, arrecadou mais de 20 por cento e chegou ao segundo turno, onde enfrentará o atual prefeito Bruno Covas (PSDB), próximo ao governador de direita João Doria. Enquanto isso, a bancada regional do PSOL saltou de dois para sete vereadores em São Paulo, a mais importante capital política e econômica do país.

Infelizmente para o PSOL e toda a esquerda, o Rio de Janeiro, a segunda capital mais importante, teve um resultado eleitoral muito diferente. Lá, o segundo turno colocará o prefeito bolsonarista e neopentecostal, Marcelo Crivella, contra o ex-prefeito do corrupto partido do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), Eduardo Paes. Apesar de ter um perfil político amplo e antigo na cidade, o PSOL perdeu seu melhor candidato, o deputado federal Marcelo Freixo, que deixou a campanha em maio com o argumento de que seria impossível vencer sem unir toda a oposição. Mesmo assim, uma jovem deputada estadual (provincial) negra chamada Renata Souza representou o partido, fazendo uma vigorosa campanha que ajudou a eleger ou reeleger sete vereadores do PSOL.

A ideia de diversificar a representação política – isto é, candidatar-se a mais mulheres, negros, indígenas e transgêneros da classe trabalhadora – ganhou força na esquerda. E o PSOL foi o maior beneficiário disso. Como destacou a BBC Brasil, a eleição marcou uma sede geral de renovação em todos os sentidos. O próprio Boulos, 38, e Manuela D’Ávila, de Porto Alegre, 39, são os que melhor exemplificam esse fenômeno. Ainda assim, a realidade é que a esquerda (ou seja, excluindo a centro-esquerda burguesa do PDT e do PSB) regrediu em termos de representação parlamentar devido à queda acentuada de vereadores do PT e do PCdoB (veja quadro abaixo). O PSOL foi o que mais ganhou entre todos os partidos, mas o PT ainda é de longe o maior partido de esquerda.

Postos prefeitos ocupados pela esquerda. No geral, a esquerda caiu de 337 para 223 cargos de prefeito (-33,83%).
Assentos na Câmara Municipal ocupados pela esquerda. No geral, a esquerda caiu de 3.881 para 3.337 cargos na Câmara Municipal (-14,02 por cento).

Olhando para as eleições de 2022, o desenvolvimento mais provável é que o eleitorado progressista – com sua preocupação com as demandas sociais, ambientais, anti-racistas e feministas – se aglutine em torno de uma identidade abertamente antibolcheonarista e pressione os partidos de esquerda (PSOL, PT, PcdoB) a considerar seriamente uma aliança eleitoral capaz de derrotar a direita. A ausência da esquerda no segundo turno carioca apenas reforça essa dinâmica. Para a coesão desse bloco, será necessário negociar uma aliança que não dê por certo o domínio do PT.

Talvez ainda mais importante, a esquerda deve usar as vitórias desta campanha (grandes e pequenas) para atuar como gotas de chuva fertilizando o solo, reavivando a vontade do povo de se unir às lutas de resistência contra os planos de Bolsonaro, bem como aqueles incubados por todos os governadores neoliberais de direita e prefeitos. A pressão pela unidade da esquerda vem principalmente de baixo, dos movimentos sociais e das comunidades, e devemos alcançá-la para derrotar a agenda violenta de Bolsonaro.