Acordo de Paris completa 5 anos, mas Brasil não poderá falar hoje em cúpula histórica


RIO – Os corredores do Parc des Expositions em Paris estavam lotados de ministros e chefes de estado de 195 países em dezembro de 2015. Foram duas semanas de idas e vindas nos corredores de blocos e nações como EUA, União Europeia, ilha estados, países emergentes e o G77. As negociações, realizadas na 15ª Conferência do Clima (COP-15), geraram o Acordo de Paris, o maior documento climático da história, que hoje completa cinco anos ainda longe de sua ambição de conter a elevação da temperatura global para, no máximo, 2 graus Celsius. Vários líderes falarão hoje, em uma cúpula sem precedentes, sobre como cumpriram seus compromissos. O Brasil não poderá falar no evento. O Ministério do Meio Ambiente, contatado pelo GLOBO, não comentou o episódio.

‘Reconhecimento’: Brasil ganha duas categorias do prêmio Fóssil do Ano por ações contra o meio ambiente e povos indígenas

De acordo com o Climate Action Tracker (CAT), um grupo científico independente sobre políticas ambientais, a temperatura global aumentará para 3,3 graus Celsius se as metas nacionais não forem renovadas. O Acordo de Paris exige que compromissos mais rígidos sejam apresentados a cada cinco anos, mas, até o momento, menos de 20 países, que representam apenas 5% das emissões de gases de efeito estufa, cumpriram a ordem. Este grupo inclui estados insulares, pequenos arquipélagos que correm o risco de desaparecer devido à elevação do nível do mar.

A nova meta brasileira é zerar as emissões de gases de efeito estufa até 2060, dez anos depois do anunciado pela maioria das nações. É um compromisso menos ambicioso do que o firmado no Acordo de Paris – reduzir, até 2030, 43% de suas emissões de gases de efeito estufa, em relação aos níveis verificados em 2005.

Consenso internacional: a última sessão plenária da COP-15 foi presidida por Christiana Figueres, secretária executiva da ONU para o clima; Ban Ki-moon, Secretário-Geral da ONU; Laurent Fabius, Ministro das Relações Exteriores da França, e Presidente da França, François Hollande Foto: STEPHANE MAHE / Reuters / 12-12-2015

O governo Bolsonaro anunciou que pode antecipar o prazo para cumprir suas obrigações, desde que o país receba US $ 10 bilhões anuais, a partir do próximo ano.

Queimaduras: Mudança climática explica o efeito cascata sobre os incêndios florestais na costa oeste americana

O CAT alterou a classificação da disposição do Brasil de “insuficiente” para “muito insuficiente”, e o país ficará fora do grupo de 77 nações que falarão de suas políticas ambientais, por não ter apresentado avanços nas iniciativas adotadas no sujeito. É uma grande derrota para o Itamaraty, ciente da má reputação do governo na área. Houve até ligações frustradas de última hora para consulados dos estados que participarão da conferência.

O Brasil 2020 é muito diferente daquele que, há cinco anos, era considerado um dos protagonistas na elaboração do Acordo de Paris. O país desempenhou um papel estratégico na redução do fosso entre as nações em desenvolvimento e desenvolvidas e fortaleceu as relações bilaterais com governos como Estados Unidos, China, Alemanha e União Europeia.

Avaliação: Brasil deve reduzir 81% de suas emissões de gases de efeito estufa, afirma Observatório do Clima

– Nossa delegação contou com uma diversidade de atores, como ONGs, populações tradicionais e empresários. Todo mundo era Brasil – lembra Izabella Teixeira, que na época comandava o Ministério do Meio Ambiente. – Coube ao país liderar o grupo de trabalho mais difícil, o da diferenciação: como fazer nações desenvolvidas e em desenvolvimento estarem no mesmo acordo, sem comprometer o princípio das responsabilidades comuns, mas diferenciadas.

Moradores observam incêndio em casa em Yorba Linda, Califórnia: mudanças climáticas causarão mais secas e ondas de calor Foto: Ringo Chiu / REUTERS / 6-10-2020
Moradores observam incêndio em casa em Yorba Linda, Califórnia: mudanças climáticas causarão mais secas e ondas de calor Foto: Ringo Chiu / REUTERS / 6-10-2020

Segundo o princípio citado por Teixeira, toda a comunidade internacional precisa contribuir para o combate às mudanças climáticas, mas as nações desenvolvidas devem oferecer tecnologia e recursos para que os países em desenvolvimento criem políticas de adaptação e mitigação contra eventos extremos.

Suzana Kahn Ribeiro, subdiretora da Coppe-UFRJ e membro do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), avalia que o Itamaraty perdeu força nas negociações internacionais sobre o clima, mas que outros atores da sociedade podem ajudar o Brasil a seguir os eixos determinados pela ciência.

Resultado baixo: Queda de 7% das emissões de gases de efeito estufa na pandemia terá impacto insignificante nas mudanças climáticas

– Nossa perda de liderança e credibilidade é preocupante, assim como a situação na Amazônia. Nesse caso, além da questão climática, estamos destruindo um enorme bem econômico – droga. – Por outro lado, a velocidade da comunicação na internet aumentou a penetração dos movimentos sociais. O mercado financeiro se engajou porque viu novas oportunidades de investimento. E os governos subnacionais, como as prefeituras, também estão preocupados, porque é nas cidades que ocorrem deslizamentos e enchentes.

O CAT avaliou que os compromissos mais otimistas já anunciados para mitigar as mudanças climáticas restringiriam o aumento da temperatura global a 2,1 graus Celsius até 2100. Um dos fatores considerados na análise foi o retorno dos Estados Unidos ao Acordo de Paris, anunciado pelo presidente. eleger Joe Biden.

Compreendo: Com Biden eleito presidente dos EUA, governo brasileiro deve mudar os rumos da política ambiental

Thelma Krug, pesquisadora aposentada do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, acredita que Biden trará um “discurso forte, mas pacífico” às negociações climáticas. A União Europeia, diz ele, também intensificou seus esforços para zerar as emissões de carbono.

– O Acordo de Paris foi uma prova da preocupação mundial com a combinação de eventos extremos e resultado de pesquisas que mostraram como alguns danos podem ser irreversíveis – destaca. – Um aquecimento de 2 graus Celsius, por exemplo, pode erradicar os recifes de coral. O Ártico já está passando por um derretimento recorde, o que contribuiria para engolir os Estados insulares. O regime das chuvas torrenciais seria alterado. De qualquer forma, o planeta passaria por um grande desastre.

Carlos Nobre: Brasil corre risco de isolamento global se evitar debate climático

Christiana Figueres, ex-secretária executiva da ONU para o clima, considerada uma arquiteta do Acordo de Paris, disse que o documento “não foi feito para ser estático”.

– Estamos constantemente observando seu progresso. Não acontece tão rápido quanto queremos, mas definitivamente há avanços – diz ele. – Antes do Acordo de Paris, dizia-se que a temperatura aumentaria de 4 para 6 graus Celsius; hoje, dizemos 3. A ciência exige que essa mudança, agora linear, seja exponencial. Precisamos adotar energias renováveis, tomando medidas como o investimento no transporte elétrico.

‘Nós somos o clima’: Livro citando Bolsonaro na lista das causas do aquecimento global chega ao Brasil

Segundo o diplomata costarriquenho, o compromisso com o acordo tem apelo entre o governo e o setor privado:

– Para o governo, é melhor para a saúde da população, cidades, transporte. Em uma empresa, pode melhorar seu desempenho financeiro. O Acordo de Paris não precisa ser punitivo. Pode continuar a se basear em objetivos voluntários, porque aqueles que se esforçam para ter sucesso atendem a seus próprios interesses.