Ao se distanciar do PT, Ciro reforça mão esquerda de Flávio Dino – 02/12/2020


A entrevista de Ciro Gomes (PDT) ao Twitter ele joga uma chuva de água fria em uma ampla frente de partidos de centro-esquerda e esquerda para 2022. Ele equiparou o bolonarismo ao lulopetismo, recorrendo a uma falsa equivalência que só cria problemas para reunir forças contra o atual Presidente da República.

Apesar de um recente encontro com o ex-presidente Lula em que os dois teriam francamente abordado suas diferenças, Ciro deixou claro que sua trajetória no primeiro turno de 2022 passa longe do PT. Como disse ao colunista Leonardo Sakamoto, ele espera conquistar uma fatia da centro-direita para formar uma aliança com as forças de centro e centro-esquerda. Ele sonha com a união do DEM com PDT, PSB, Rede e PV.

Ciro tentou essa fórmula em 2018, mas não funcionou. O DEM se valoriza perante os tucanos e o apresentador Luciano Huck quando acena para o pediatra, mas a base conservadora do partido dificulta a aliança.

As declarações de Ciro após o resultado das eleições municipais, dizendo que o bolonarismo e o lulopetismo foram proibidos nas urnas, devem ser vistas com alguma cautela.

O presidente Jair Bolsonaro ainda é o nome mais forte no campo que vai da centro-direita à extrema direita. Para capturar as forças centrais, Ciro precisa enfrentar a concorrência de Huck, se não desistir da aventura presidencial novamente, do governador de São Paulo, João Doria, e de outros tucanos.

O PT continua sendo o partido mais relevante no segmento de centro-esquerda e esquerda. Sem a base do PT, Guilherme Boulos (PSOL-SP), Manuela D’Ávila (PCdoB) e José Sarto (PDT-CE) não teriam tido o bom desempenho que obtiveram. Boulos e Manuela perderam em São Paulo e Porto Alegre, mas fizeram campanhas de renovação na ala esquerda. Sarto foi eleito prefeito de Fortaleza com apoio do governador do PT, Camilo Santana.

Aplicativo Kirchner?

O movimento de Ciro gerou novas conversas sobre o futuro do PT em 2022. Parte do partido parece convencida da necessidade de adotar a estratégia argentina: ser vice em uma chapa presidencial, a exemplo de Cristina Kirchner, que aceitou ser número dois de Alberto Fernández.

Nesse cenário de combate ao antipetismo com pragmatismo, o governador do Maranhão, Flávio Dino (PCdoB), vem se fortalecendo para comandar uma chapa presidencial com apoio do PT. Dino faz gestos políticos de respeito a Lula e ao Petismo. Ao se distanciar do PT como faz, Ciro reforça a força política do governador do Maranhão no conselho de centro-esquerda e esquerda.

Outra ala do PT acredita que o partido deve sair na frente, avaliando que aconteceria um novo duelo com o Bolsonaro e que o desfecho seria diferente de 2018.

Os candidatos seriam Lula, se ele se livrasse dos entraves judiciais, ou o ex-prefeito Fernando Haddad, que concorreu por dois anos. Existem outros nomes, como o do senador Jaques Wagner (PT-BA). Nesse cenário, Dino poderia ser deputado de um PT.

Cálculos para 2022

O bom desempenho do PSOL nas eleições municipais também fortaleceu a posição do partido nas negociações de uma frente de centro-esquerda e de esquerda. O PSOL atraiu um eleitorado mais jovem que se distanciou do PT. O nome de um partido pode ser vice, mas é improvável que encabeça uma lista do centro-esquerdo e do campo esquerdo.

Aos olhos de hoje, uma aliança entre PT, PCdoB e PSOL parece ter mais chances de chegar ao segundo turno do que a frente imaginada por Ciro. O PT teve um desempenho ruim nas eleições municipais. Não adianta cobrir o sol com uma peneira. Mas é um erro político ignorar o impulso que a base petista dá a um candidato presidencial na primeira fase. Basta olhar para o desempenho de Haddad, que chegou à segunda rodada com um lance de última hora em 2018.

Outro equívoco é tomar os resultados das eleições municipais de 2020 como uma previsão do que acontecerá em 2022. Há mensagens claras, como o enfraquecimento do bolsonarismo, a resiliência do antipetismo alimentado por Lava Jato e a sugestão de que o mais amplo possível frente seria mais competitivo. Mas há muita água para passar por baixo da ponte. Fechar as portas com antecedência não é recomendado.

No PT, há um movimento de incentivo ao lançamento de puxadores de votos nas eleições para deputados federais. As estrelas do partido fora da maioria (presidencial ou estadual) devem reforçar a estratégia de ampliação da bancada na Câmara dos Deputados. Faz muito sentido.