As postagens são enganosas ao comparar os dados oficiais de mortalidade da Covid-19 com estimativas de mortalidade de outras causas


Por Ana Rita Cunha e Priscila Pacheco

11 de dezembro de 2020, 17:26


Postagens que circulam nas redes sociais buscam minimizar a letalidade do coronavírus por meio de uma comparação falaciosa entre os números de mortes por Covid-19 e outras causas no mundo (veja aqui). Para isso, os dados extraídos das plataformas Worldmeters e Index Mundi, que não são bases oficiais e estimam óbitos com base em dados e projeções, são comparados com as notificações reais de óbitos pelo vírus, gerando interpretações distorcidas.

Os dados citados nas notificações de óbitos da Covid-19 (257 óbitos / dia) indicam que o pedaço de desinformação teria surgido em março, no início da pandemia. Hoje, nove meses depois, a taxa de mortalidade por dia é diferente: 4.587 pessoas morreram todos os dias com o novo coronavírus, de acordo com dados de países agregados pela Universidade Johns Hopkins.

Versões recentes do jogo de desinformação circularam no Facebook e reuniram pelo menos oito mil compartilhamentos na tarde desta sexta-feira (11). O conteúdo foi marcado com o selo FALSE na ferramenta de verificação da plataforma (veja como funciona).


FALSO

Ao tentar minimizar a letalidade da pandemia, as postagens nas redes sociais enganam ao comparar dados de diferentes naturezas: notificações oficiais de óbito da Covid-19 com projeções informais de mortalidade por outras causas no mundo, como câncer, acidentes de trânsito e suicídio.

As publicações citam os Worldômetros e o Index Mundi como fontes dos números apresentados, contando o número de mortes no mundo desde o primeiro dia do ano até a data atual. Embora não divulguem o cálculo usado nessas projeções, as páginas afirmam ser baseadas em dados e estimativas da OMS (Organização Mundial da Saúde) e outras organizações da ONU. A exceção são os dados da Covid-19, que não são estimativas, mas o número de mortes realmente relatadas pelos países.

Além de comparar números com diferentes bases de dados e limitações, as publicações alcançam uma taxa diária de mortalidade que provavelmente foi calculada pela divisão do número de dias do ano até a redação do texto. Os dados, portanto, acabam sendo mais distorcidos, pois a ocorrência de óbitos não é uniforme ao longo do ano.

No caso de doenças cujo histórico já é conhecido, é possível estimar o número total de óbitos ao longo do ano e, dividindo este dado pelo número de dias, tendo-se um valor para o número de óbitos diários. É uma situação diferente da Covid-19, uma doença nova com sazonalidade pouco conhecida, e não é possível dizer que a taxa de mortalidade por dia registrada no início do ano se repetirá ao longo de todo o ano.

Quando a peça começou a circular no final de março, o número de mortes da Covid-19 no mundo era de 21.900 na época, segundo dados divulgados por países e agregados pela Universidade Johns Hopkins. O valor citado pela peça aproxima-se da divisão dos óbitos pelos primeiros 85 dias do ano (257 óbitos / dia).

Em março, a pandemia ainda estava em sua infância. A partir da segunda quinzena daquele mês, o número de mortes por dia começa a crescer exponencialmente. Como comparação, em abril 237 mil pessoas morreram com Covid-19, 10 vezes mais do que a soma das mortes de janeiro a março.

Fazendo o mesmo conta com os dados atuais, considerando os dados de janeiro a 9 de dezembro, 4.587 pessoas morreram por dia do novo coronavírus, número bem superior ao que aparece na peça. Em novembro, segundo dados do CDC (Center for Disease Control, agência de saúde do governo americano) compilados pelo site Poder360, a Covid-19 foi a segunda causa de morte no Brasil (a primeira foi câncer) e a terceira nos Estados Unidos Estados, após doenças cardíacas e câncer, respectivamente.

Benilton de Sá Carvalho, professor do departamento de estatística da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), explica que é preciso ter cuidado ao usar esse tipo de dado mencionado na peça de desinformação. Ele explica que essa taxa de mortalidade por dia omite que as doenças tenham uma incidência diferente ao longo do ano e que os países, dependendo das características demográficas e climáticas, sejam afetados de forma diferente pelas doenças.

Outro problema com a peça de desinformação é mencionar causas de mortalidade que não são exclusivas. Por exemplo, mortes por uso de cigarro incluem partes de mortes por câncer, também citadas na publicação.

Referências:

1. Worldômetros
2. Index Mundi
3. Nosso mundo em dados
4. Power 360
5. CDC