Assaltos a banco têm meses de planejamento, financiamento e armamento pesado – 02/12/2020


Os grandes assaltos a bancos, como os ocorridos em Criciúma (SC) e Cametá (PA) nesta semana, têm um planejamento que dura meses e inclui monitoramento da polícia local, rotas de fuga bem definidas, além da escolha de criminosos que são especialistas no uso de armas e explosivos de grande calibre.

De forma geral, segundo policiais federais e civis, promotores, promotores de justiça e especialistas em segurança pública ouvidos pelo Twitter, esses grandes ataques são liderados por um ou dois líderes – quatro no máximo. São eles que financiam individualmente o crime, mas têm apoio estrutural em facções criminosas com o PCC (Primeiro Comando da Capital).

Além dos últimos casos registrados, ocorreram roubos semelhantes em Botucatu e Guararema, no interior de São Paulo. Especialistas apontam que existe uma dinâmica semelhante em todos esses crimes, além do alto poder militar: os crimes costumam acontecer em cidades com menos de 500 mil habitantes, com poucos policiais de plantão e durante a noite.

As ações costumam surpreender: a ideia dos bandidos é que, sem troca de tiros, o furto não dure mais do que 20 minutos entre a entrada na cidade e a saída com o dinheiro.

Outra estratégia, dependendo da dinâmica local, é atacar bases da PM antes do crime, para levar a polícia até esses locais e retardar o poder de reação no local onde ocorre o furto.

Bloquear estradas com veículos em chamas também faz parte do plano criminoso. Em alguns casos, os cidadãos são usados ​​como escudos humanos por ladrões.

Normalmente, o planejamento do mês inclui a “digitação” dos bandidos designados para o roubo, com diferentes “características criminosas”. Após o roubo, o valor obtido é separado: 50% fica com os financiadores do roubo, a outra metade fica com a organização criminosa que financiou o crime, informou um procurador de São Paulo ao relatório.

Um procurador aposentado acrescentou que, historicamente, esses grandes furtos têm sido perpetrados por pessoas que fazem parte de facções criminosas, mas que a ação em si não é da facção, mas sim “um andar individual do criminoso”, ainda que ele tem parceria com a estrutura do crime organizado.

Para ter um parâmetro de preço para realizar um assalto em grande escala, o professor de Gestão Pública da FGV (Fundação Getúlio Vergas) Rafael Alcadipani explica que o aluguel de um rifle PCC varia de R $ 20 mil a R $ 30 mil, mas dependendo do tamanho do assalto, esse aluguel pode pular para até R $ 200 mil.

“Se a ação vai gerar muito dinheiro, a facção criminosa pode pagar uma joia [dinheiro à parte] sobre a ação especificamente. Se for uma ação espetacular, como a de Criciúma, por exemplo, podem cobrar de R $ 50 mil a R $ 200 mil ”, diz o professor, que também é membro do FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública) .

Além disso, Ivana David, desembargadora da 4ª Câmara Criminal do TJ-SP (Tribunal de Justiça de São Paulo), questiona: “Se fizermos uma conta sob o custo de Criciúma: dez carros blindados, munições, fuzil .50, de 20 a 30 criminosos. Já imaginou o custo? Roubaram quanto? Porque apreenderam apenas R $ 850 mil. Quase R $ 300 mil jogados na rua. Quanto roubaram? ”

Ela diz que “a conta do crime organizado tem que fechar”. “O custo que custou para praticar esse crime, repetido 24 horas depois em outro lugar do Brasil, é preciso muito dinheiro, carro, acomodação, arma, material explosivo. Tudo isso é muito caro. Estão carregando um caminhão de dinheiro “, ele diz.

Alcadipani reitera que, para isso, existe uma “organização em rede”. “É preciso fazer um levantamento do local, ver quais policiais estão lá, é preciso pensar quem vai agir para impedir a saída dos policiais, é preciso recolher armas. Geralmente tem uma ou duas pessoas que são lideranças e que procuram trazer pessoas que possam contribuir para o crime ”, afirma.

“Então, vai ter uma pessoa que vai ser boa com explosivos, outra que vai ficar na contenção com um rifle, vai ter uma pessoa que vai fazer o levantamento da área e planejar a rota de fuga. Ou seja, é preciso planejamento, estrutura, organização. É uma organização em rede ”, acrescenta o especialista.

Samira Bueno, diretora executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, diz que há criminosos que sabem fazer explosões em caixas eletrônicos porque houve uma onda recente desse tipo de crime, mas, como os de ontem e de hoje, ela diz que deveria não ser tantas pessoas com esse conhecimento.

“Outra questão a ser levantada é o tipo de armamento e explosivos. No caso de explosivos, é restrito ao Exército. Eles estão no controle, então deve ter havido desvio ou algum roubo grande, que, de vez em quando , acontece. O armamento pesado utilizado também é de uso restrito ”, acrescenta.

Na lista da “nova cúpula” do PCC, apresentada pelo Ministério Público de São Paulo em setembro, Levi Adriani Felício, acusado de lavagem de dinheiro e guarda de armas para a facção no Paraguai, tinha certificado de registro de CAC (coletor , atirador e caçador) com o Exército Brasileiro até 2017.

Série exclusiva – PCC: Primeiro Cartel da Capital

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