Brasil alcança marco sombrio COVID-19

SÃO PAULO

O Brasil registrou a 300.000ª fatalidade do COVID-19 na quarta-feira, apenas 75 dias depois de registrar 200.000 mortes, de acordo com a mídia local.

O marco sombrio foi alcançado apenas um dia depois que o número diário de mortes causadas pelo vírus no país ultrapassou 3.000 pela primeira vez e enquanto as condições mostram poucos sinais de melhora.

Menos de 2% das 5.570 cidades brasileiras têm uma população inferior a 300.000, o que significa que se todas as vítimas de COVID-19 do país vivessem na mesma cidade, muitos municípios seriam dizimados.

A situação no Brasil mostra que, ao contrário da maioria dos países, onde os números de COVID já estão diminuindo, a pandemia está longe daqui.

De março de 2020, quando foi registrada a primeira fatalidade por coronavírus no Brasil, até a tarde de quarta-feira, o país havia registrado 300.015 mortes.

O número deve crescer até o final do dia, já que a maioria dos estados ainda não divulgou seus dados completos, com apenas 10 das 27 unidades da federação o tendo feito.

De longe, o Brasil lidera em número de mortes diárias em proporção à sua população.

No país, 1,12 por 100.000 pessoas morrem diariamente de COVID-19, em média, enquanto os números são bem menores nos países seguintes, como Itália (0,67), França (0,39), México (0,37) e até mesmo os EUA (0,30 ), o líder global em vítimas de COVID-19.

O número sombrio foi alcançado porque o país está testemunhando um colapso total de seu sistema de saúde, com o número de casos e mortes aumentando em todas as regiões em meio a um programa de vacinação lento e desorganizado em que apenas cerca de 3% da população tomou as duas doses necessário para a imunização completa.

Tudo isso se soma a um negacionismo reinante e à recente nomeação do quarto ministro da Saúde do Brasil desde o início da pandemia. O cardiologista Marcelo Queiroga assumiu o cargo nesta terça-feira, em cerimônia fechada, não registrada na agenda oficial.

Renan Ribeiro Cardoso, de 22 anos, de São Paulo, é uma das mais vítimas do país, que sucumbiu ao vírus no dia 13 de março.

Seu maior sonho era presenciar o casamento de seus pais, que moram juntos há 26 anos. Ele já havia planejado a festa e pago todos os preparativos da cerimônia, mas teve que ser adiada devido à pandemia.

A família dificilmente poderia imaginar que a data tão esperada seria o mesmo dia em que Renan morreria. Com o COVID-19, Renan foi a primeira vítima da falta de leitos de UTI na cidade de São Paulo.

Em apenas 12 dias, o advogado Israel Vieira, de Santo André, cidade da região metropolitana de São Paulo, viu seu pai e dois avós paternos morrerem de COVID-19.

“Acho que se fôssemos um país sério, pelo menos meus avós já teriam sido vacinados”, disse ele à Agência Anadolu, informando que tinham 80 e 76 anos.

“Se o Brasil estivesse realmente comprometido com a vacinação e não com medicamentos sem eficácia, até meu pai já poderia ter sido vacinado”, acrescentou.

Levantamento divulgado no dia 17 de março deste ano pelo Instituto Datafolha mostra que 43% da população brasileira considera o presidente de extrema-direita Jair Bolsonaro o responsável direto pela situação em que se encontra o país e pelas mortes acumuladas.

Administrações locais como governadores (17%) e prefeitos (9%) aparecem a seguir. Uma parcela (6%) responsabiliza a própria população, que não segue as diretrizes de distanciamento social.

Desde o final de 2020, as inspeções em muitas cidades encontraram festas lotadas ilegais e bares e boates abertos. O transporte público, precário nas grandes cidades, também é um grande fator de superlotação.

Para 5%, a culpa recai sobre todos os mencionados – governos nacionais e locais e a população.

Embora 55% dos brasileiros afirmem ter “muito medo” do coronavírus, o percentual da população que acha que o isolamento deve ser mantido nunca foi menor, de 59%.

No início da pandemia, era de 76%. Um terço argumenta que as medidas de isolamento deveriam acabar, de acordo com os recorrentes discursos negacionistas de Bolsonaro.

“Quando houver negação sobre o aumento do número de casos, quando [people] negar que seja preciso tomar medidas além da vacinação, o que vemos é o caos em que vivemos ”, afirma a sanitarista e epidemiologista Carla Domingues.

Nas unidades de saúde, os profissionais notificam mais crianças, jovens e adultos com menos de 60 anos em enfermarias e UTIs. Eles demoram mais para procurar atendimento. Portanto, chegam em estado grave de saúde.

Por apresentarem mais resistência ao vírus em comparação aos idosos, porém, ocupam leitos por mais tempo, contribuindo para a superlotação dos hospitais.

Segundo a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), maior centro de pesquisas médicas da América Latina, a situação da ocupação de leitos de UTI no Brasil é “extremamente crítica”. Todos os estados do Brasil, com exceção do Amazonas e Roraima, são classificados como “alerta crítico”.

Há ainda outro problema sério que ameaça os pacientes no Brasil: a falta de oxigênio. Segundo a Procuradoria-Geral da República, seis estados estão em situação crítica, entre eles Mato Grosso, Ceará e Acre. Outros sete estão em alerta, incluindo São Paulo, Pará, Minas Gerais e Bahia.

Organizações de saúde também alertam para uma potencial crise de escassez dos medicamentos usados ​​para intubação, com estoques baixos e alta de preços que chega a 1.700% em alguns casos.

Em meio a tudo isso, pela sexta vez, o governo federal reduziu a previsão de que as doses das vacinas fossem disponibilizadas à população, gerando incertezas.

A perspectiva geral é pessimista. O Brasil vive atualmente um alto índice de contágio, registros diários de mortes, colapso dos sistemas de saúde e vacinação lenta.

Embora governadores e prefeitos tenham anunciado medidas restritivas mais duras nas últimas semanas, ainda falta um direcionamento nacional para mudar a situação como um todo.

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