Brasileiros recorrem ao ‘Atacarejo’ para economizar dinheiro nas compras

RIO – A necessidade de reduzir gastos com alimentação e as restrições de viagens impostas pela pandemia levou a assessora jurídica Bruna Silva, 31, a atender um mercado atacadista – o chamado Atacarejo – na Tijuca, Zona Norte do Rio, para abastecer a despensa no último ano. A ideia era sair menos e comprar mais, explica ela, que estima economizar perto de 20% ao mês:

– Os preços aumentaram muito e esses mercados tornaram-se uma opção. Eu compro produtos que posso guardar por mais tempo. O preço é mais baixo. E mesmo os itens que você compraria em varejistas tradicionais às vezes são mais acessíveis.

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Assim como Bruna, seis em cada dez residências no país já usam o Atacarejo para fazer compras, segundo dados da consultoria Nielsen. As redes de atacarejo abocanharam 40% das vendas em 2020 no grande varejo do país, que também inclui super e hipermercados. O salto veio com crises sucessivas desde a recessão iniciada em 2014, quando essa fatia era de 27,8%.

Para Bruna Silva, o Atacarejo permite “sair menos e comprar mais” Foto: Arquivo pessoal

Hoje, o consumidor final disputa espaço frente a frente com os pequenos comerciantes, tradicionalmente a maioria do público atacarejo.

A crise provocada pela pandemia ajuda a acelerar a expansão das grandes redes do segmento, como Atacadão, do Carrefour, e Assaí, listados em bolsa desde o início de março, após cisão com o Grupo Pão de Açúcar.

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– A proposta do Atacarejo é palco de momentos de crise, redução da renda e alta da inflação. Nos últimos anos, o Brasil enfrentou crises sucessivas, com aumento do desemprego. As pessoas procuram o canal de vendas com preços mais baixos – explica Eduardo Yamashita, diretor de Operações da consultoria Gouvêa Ecossistema.

Concentre-se no básico

No acumulado do ano até 14 de março, as vendas no varejo físico – totalizando super e hipermercados, Atacarejo e farmácias – cresceram 14,5% em relação ao mesmo período de 2020. O avanço do Atacarejo, sozinho, porém, foi de 22,8%.

Para ter um custo reduzido, as redes operam com grandes lojas, com menores gastos com logística, aproveitando o espaço de vendas também como estoque, com poucos serviços e menos funcionários.

– Por isso podem oferecer preços melhores, vendendo também em maior quantidade. Produtos como fraldas descartáveis, por exemplo, custam 15% menos do que nas farmácias. Os demais canais de varejo têm que se destacar pelo atendimento e comodidade. Não dá para brigar com o preço – destaca Bruno Achkar, coordenador de varejo da Nielsen.

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A busca pela redução de gastos também afetou a cesta de compras, diz Achkar. O consumidor hoje privilegia itens básicos e praticidade. Na alimentação, houve aumento nas vendas de almôndegas (46,1%), arroz (34,8%), óleos e azeites (39,6%) e batata congelada (35,2%).

Eles deixaram barras de cereais (-19,1%), sorvetes (-7,2%) e comida para bebês (-17,2%). Entre as proteínas, o foco está nas de menor preço, embora todas tenham registrado aumento no consumo. Os cortes de suínos, por exemplo, cresceram 35,7%, enquanto os bovinos, mais caros, 16,4%.

Com a crise, itens como comida para bebês e sorvetes saíram da cesta de compras dos brasileiros Foto: Leo Martins / Agência O Globo
Com a crise, itens como comida para bebês e sorvetes saíram da cesta de compras dos brasileiros Foto: Leo Martins / Agência O Globo

Virgínia Souza, estudante carioca de 24 anos, conta que, com a inflação alta, ela e sua família passaram a comprar do atacado, priorizando produtos com preços melhores:

– Tem a vantagem de ter descontos para compras maiores, o que é bom, já que os preços são bem altos. Devemos continuar a usar esses mercados mesmo com o fim da pandemia. Somente quando você está procurando por algo muito específico ou sofisticado, você não o encontrará.

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As grandes redes, porém, vêm fazendo ajustes para atender melhor o consumidor final.

– Hoje, o movimento é dividido igualmente entre comerciantes e consumidores finais. Já expandimos o misturar de produtos. Também melhoramos a iluminação, o ar condicionado e instalamos cafés nas lojas. Mas é preciso focar no modelo e na assertividade – comenta Moacir Sbardelotto, diretor regional de Operações do Assaí.

Pé no acelerador

Com 184 lojas, a rede, que encerrou 2020 com lucro de R $ 1 bilhão, 25% a mais que no ano anterior, se prepara para abrir 78 lojas até o final de 2023, quando chegará a todos os estados do país.

– Pesquisamos muito a localização ideal para novas lojas, o que acelera o amadurecimento da unidade e traz um retorno mais rápido. O objetivo é o crescimento orgânico, inicialmente sem aquisições. Mas isso não é gesso – diz Sbardelotto.

Para este ano, o Assaí está preparando uma plataforma B2B, para vender direto para empresas, e uma comércio eletrônico com parceiros.

Yamashita, do Ecossistema Gouvêa, lembra que grupos atacadistas de sucesso vão pisar no acelerador:

– As lojas Atacarejo pedem menos investimento para serem abertas em comparação a um hipermercado, mas têm o dobro ou até mais de faturamento. Essas redes maduras seguirão em frente. As consolidações também virão, mas apenas se o ativo a ser adquirido estiver saudável.

As aquisições têm sido um motor de expansão do Carrefour, dono do Atacadão e líder em todo o varejo do país.

– Neste ano, continuaremos com o plano de expansão, com a inauguração prevista de 20 lojas, além das comércio eletrônico. Teremos também a finalização da integração das 30 lojas do Makro adquiridas em 2020 – afirma Marco Oliveira, vice-presidente do Atacadão.

No mês passado, o Carrefour comprou a BIG (ex-Walmart) por R $ 7,5 bilhões, lembrando que a operação, que ainda precisa ser aprovada pelo regulador, vai ampliar a presença da empresa nas regiões Nordeste e Sul. que vai converter as lojas Maxi em Atacadão. Em 2020, as vendas líquidas do Atacadão cresceram 23,1% em relação a 2019.

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