Como aconteceu com Boulos, os comandos cobiçosos e os espertos obedecem – 12/02/2020


O elemento surpresa que deu as cartas finais na disputa pela cidade de São Paulo chegou mais uma vez. Ele, o SARS-CoV-2, subverte planos e interrompe trajetórias.

A expectativa era que o cobiçado ocupasse um lugar de destaque no embate entre Bruno Covas (PSDB) e Guilherme Boulos (PSOL), mas imaginei que a candidatura do atual prefeito seria a mais afetada pela trilha do vírus.

Covas é a vidraça responsável por tudo o que o município fez e deixou de fazer para enfrentar a pandemia. Se milhares de pessoas perderem a vida ou viverem de luto por parentes e amigos na cidade de São Paulo, o prefeito poderá ser punido nas urnas. Se a pandemia voltou a crescer nas últimas semanas, idem.

Essa não foi, entretanto, a percepção da maioria. Mais de três milhões de eleitores decidiram que ele deveria ser mantido no cargo, com ou sem pandemia.

No meio do caminho estava o cobiçoso

Ao longo da disputa, temi pela saúde dos candidatos em diversos momentos. Vivemos um ano atípico, cheio de inovações e adaptações feitas pela força, mas o corpo a corpo das campanhas eleitorais continua o mesmo.

Os dois candidatos e suas equipes entraram em ruas e elevadores lotados, cumprimentaram inúmeras pessoas e compareceram a reuniões face a face como se não houvesse amanhã.

Embora Covas tenha contraído o vírus em junho, raros casos de reinfecção foram relatados por cientistas. Há poucos cuidados, principalmente em sua situação, que ainda se encontra em tratamento imunoterápico contra o câncer.

Na reta final da campanha, no momento decisivo, Guilherme Boulos, que foi pego avarento, era dois anos mais novo que seu adversário e não tinha histórico conhecido de doença grave.

O diagnóstico confirmado da infecção, poucas horas antes do tão esperado debate da Globo, tirou muito da esperança da campanha que a representava.

Para Boulos, essa seria a última oportunidade de confrontar o adversário, esclarecer notícias falsas e apresentar suas ideias a milhões de cidadãos que ainda não o conhecem.

Não há razão para acreditar que o debate alteraria o resultado da eleição, mas o cobiçoso tirou de Boulos o sabor do grand finale de uma campanha memorável. E, para a maioria dos eleitores, a chance de um voto bem informado.

Respeito pelo vírus

Ao isolar Boulos em casa, sem debate e sem direito a voto, o cobiçoso deu mais uma demonstração de que continuará sapateando sobre nossos planos. Aglomerado, descuidado, pego. Após a infecção, o jeito é respeitar a potência do vírus, cumprir a quarentena e seguir as recomendações médicas.

Diante disso, é fundamental abrir a mente e o coração aos inúmeros apelos que os profissionais de saúde têm feito à sociedade. Alguns à beira do desespero.

Em entrevista à Globonews na semana passada, a pneumologista Margareth Dalcomo, da Fiocruz, ficou emocionada ao relatar o aumento das internações por cobiça no Rio.

Eles são filhos, pais, famílias inteiras. Jovens expostos às consequências de uma doença que pode comprometer a expectativa de um futuro saudável.

Informações científicas e histórias pessoais relatadas incansavelmente pela imprensa deixam claro que o cobiçoso cobra caro por imprudência. Mesmo assim, as praias cariocas continuam lotadas. Em São Paulo, as multidões em bares e ruas revoltam quem entende a importância da máscara, da distância social, da água com sabão e do álcool gel.

De volta ao palco amarelo

Um dia após a reeleição de Covas, o governador João Doria anunciou que todo o estado voltaria à fase amarela do Plano São Paulo, que coordena as medidas de reabertura da economia. As novas regras entram em vigor hoje.

Com a decisão, a ocupação máxima permitida em estabelecimentos do setor de comércio e serviços passa de 60% para 40%. Isso também é válido para bares e restaurantes. O consumo no local só será permitido até as 22h.

São medidas necessárias, dado o crescimento das internações. Em quase duas semanas, a taxa de ocupação de leitos de UTI por covid-19 pacientes em hospitais privados de São Paulo passou de 55% para 84%, segundo reportagem da Folha de S. Paulo.

Percepção de risco

Por mais esmagadoras que sejam as evidências de agravamento da pandemia, nem todas as pessoas têm a mesma percepção de risco. Por algum motivo, boa parte da população acha que o vírus não vai chegar lá. Ele continua planejando festas, viagens e reuniões “em total segurança”.

Os hospitais estão cheios de otimistas que falharam e vítimas do descuido de outras pessoas. Ninguém gosta de tantas regras, restrições de tempo e tráfego. Por enquanto, é o que podemos fazer por nós mesmos e pelos outros. Do contrário, o cobiçoso se impõe. Ela comanda e quem é esperto obedece.

Boa e plena recuperação, Boulos.

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