como estão o crédito consignado, casa e carro?

Na semana passada, o Banco Central elevou a Selic (juros básicos da economia) de 2% para 2,75% ao ano. O primeiro aumento nas taxas desde 2015 pode tornar os empréstimos mais caros e afetar o crescimento do crédito para as pessoas neste ano, dizem os economistas. O financiamento da casa própria, carro ou empréstimo consignado deve sofrer pouco. Mas o crédito pessoal e as compras parceladas podem parecer mais.

O severo agravamento da crise de saúde provocada pelo avanço do covid-19 já levou muitas das principais cidades do país a paralisar a economia. Esse ainda é o maior obstáculo para os bancos aumentarem a carteira de crédito às famílias, segundo especialistas. Mas o aumento das taxas de juros pode agravar a situação e frear a queda das taxas de crédito para pessoas físicas, que vinha ocorrendo em 2020.

Segundo os bancos, a crise econômica causada pela pandemia está travando a economia. E isso, por si só, já reduz as possibilidades de aumento dos empréstimos neste ano. Mesmo que os bancos tenham dinheiro e disposição para emprestar, o crédito não cresce por falta de demanda.

Veja a seguir a evolução da carteira de crédito pessoa física em alguns tipos de operações, considerando o saldo e os juros cobrados:

Altas taxas de juros em meio à crise

Mas é nesse ambiente já negativo que a taxa básica de juros foi elevada de 2% para 2,75% na última reunião do Copom (Comitê de Política Monetária). O Banco Central já avisou que deve aumentar a taxa novamente em maio, para 3,5%. E o mercado projeta que a Selic vai subir até 6% em um ano.

Para o médico em finanças da Universidade de Washington, Rafael Schiozer, a alta da Selic em meio ao agravamento da crise econômica pode levar os bancos a serem mais seletivos na concessão de novos empréstimos ou na renovação de financiamentos.

A pandemia piorou muito em março, o que aumenta o risco de crédito devido ao impacto na economia. A alta da Selic era até esperada, mas agora está claro que essa alta está chegando e que vai ser forte. São dois fatores que caminham juntos e que devem impactar a concessão de crédito neste ano. Portanto, não acho que a carteira de crédito deva crescer muito mais que a inflação em 2021.
Rafael Schiozer, professor de finanças da FGV-Eaesp

Empréstimos não garantidos sofrerão mais

O superintendente de assessoria econômica da ABBC (Associação Brasileira de Bancos), Everton Gonçalves, afirma que os novos empréstimos já estão caindo. Em janeiro de 2020, chegaram a R $ 184 bilhões, mas em janeiro de 2021 chegaram a R $ 165,6 bilhões.

A alta da Selic terá impacto na oferta de crédito, mas será diferenciada conforme a modalidade de empréstimo. Além disso, existem outros componentes, como a tributação e a evolução da inadimplência, que se espera aumentem o custo do crédito para pessoas físicas. Na realidade, as concessões de crédito a pessoas jurídicas [empresas] já estão sendo reduzidos, com o arrefecimento da atividade que tende a ser maior no segundo trimestre de 2021, devido ao agravamento da crise sanitária.
Everton Gonçalves

O impacto depende do tipo de empréstimo

A alta da Selic alcançará crédito para pessoas dependendo do tipo de empréstimo que o cliente estiver procurando, dizem economistas. Veja os impactos, segundo analistas:

  • Empréstimos com garantias: Financiamentos de casa própria, automóvel ou crédito consignado tendem a sofrer pouco impacto – seja na oferta de dinheiro ou nos juros.
  • Empréstimos não garantidos: O crédito pessoal ou as compras parceladas no comércio devem sofrer mais. Os bancos serão mais seletivos e deverão aumentar as taxas de juros por causa das incertezas na economia e do aumento de tomadores de empréstimos.
  • Cartão de crédito e cheque especial: Taxas de juros mais altas são esperadas. Mas a oferta dessas duas modalidades tem sido reduzida pelos bancos desde que houve mudanças nas regras de limitação de encargos, afirma Schiozer, da FGV-Eaesp.

O saldo do cheque especial recuou 24,4% nos 12 meses encerrados em janeiro, para R $ 19,4 bilhões. No cartão, o total diminuiu 14,6%, para R $ 35,9 bilhões, no mesmo período.

Para efeito de comparação, a carteira de crédito pessoal cresceu 13,2% em 12 meses, para R $ 592,2 bilhões; a carteira de financiamento de veículos cresceu 7,3%, para R $ 222 bilhões; e os financiamentos imobiliários avançaram 12,1%, para R $ 717,7 bilhões.

Juros são tão altos que Selic não faz diferença

O economista especialista em bancos Roberto Troster, consultor de organismos internacionais como o Banco Mundial e o FMI, diz que a crise pandêmica é o principal fator de limitação do crédito, não a alta da Selic.

Mas isso porque os juros finais cobrados do consumidor ainda são muito superiores à Selic. Os juros do cartão de crédito ultrapassam 320%, enquanto a Selic é de 2,75% ao ano.

A pandemia não vai acabar tão cedo. Já temos 62 milhões de CPFs com mais de uma conta vencida. À medida que a crise piora, isso é uma bola de neve. A alta da Selic já estava na conta. Além disso, considerando o interesse na ponta [cobrados do cliente/, uma Selic subindo de 2% para 6% tem impacto marginal.
Roberto Troster, sócio diretor da Troster e Associados.

O que dizem os bancos

Os bancos projetam um crescimento de 7,3% na carteira total de crédito neste ano, para R$ 4,1 trilhões, segundo pesquisa da Febraban (Federação Brasileira de Bancos) com seus associados, em um movimento puxado pelos empréstimos totais às pessoas físicas, que poderia crescer 10% na visão das instituições financeiras.

Mas quando essa pesquisa foi feita, no começo de fevereiro, o país ainda não tinha sido atingido pela segunda onda da covid-19. E a alta da Selic projetada pelos bancos para este ano seria mais leve, indo até 3,75%. Mas agora o mercado já vê a Selic subindo ainda mais.

O diretor de economia, regulação prudencial e riscos da Febraban, Rubens Sardenberg, disse que a alta da Selic já estava no radar e não é esse o fator que pode atrapalhar ainda mais o crescimento do crédito para as pessoas físicas neste ano.

A pandemia está exigindo medidas adicionais de restrição à atividade econômica, o que vai ter impacto no crédito, com destaque, por exemplo, naquele relacionado ao consumo. A alta da Selic já estava nos cenários dos mercados. O que o Banco Central fez foi antecipar esse movimento.
Rubens Sardenberg

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