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Folhapress

PT tem força de Lula questionada e admite erros na eleição municipal

SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS) – Depois de uma eleição em que não conseguiu levantar capital pela primeira vez, viu seu número de prefeituras cair em quase um terço e questionou a força do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o PT admite que sofreu um dos maiores contratempos da sua história. Mas ele diz que parte das razões para isso escapou de seu controle. O partido agora tenta se recompor para não repetir esse cenário em 2022 e busca dissociar o resultado de domingo (29) das chances de retomada da presidência. “Não dá para dourar a pílula, o PT sofreu uma derrota”, diz o secretário de comunicação da sigla e candidato derrotado a prefeito de São Paulo, Jilmar Tatto. O problema fundamental, diz ele, é que o eleitorado não via o partido como alternativa ao governo de Jair Bolsonaro. “O povo era conservador. Em 2018, eles votaram no Bolsonaro e suas vidas pioraram, devido à pandemia e ao desemprego. Mas agora eles estavam com medo da mudança.” Em termos práticos, isso significou, segundo Tatto, a opção por candidatos e partidos tradicionais. “Esse movimento do eleitorado contra o Bolsonaro não veio para nós, ele foi para o centro”, diz. Apesar disso, Tatto aponta como um triunfo o fato de o PT ter contribuído para a derrota de candidatos mais ligados ao presidente. “Começamos a campanha para derrotar o obscurantismo e o fascismo. Conseguimos isso, não é uma coisa pequena.” Mesmo com uma queda de 256 para 183 municípios administrados, ou 28,5%, o PT vê alguns pontos positivos em uma eleição deprimente. Conseguiu ficar em 15 segundos e venceu em 4: Contagem e Juiz de Fora, em Minas, Diadema e Mauá, em São Paulo. Há quatro anos, ele estava no 7º, perdendo no total. Especialmente comemorado foi o retorno ao poder na região do ABCD Paulista, berço do partido. No geral, o PT manteve praticamente inalterado o número de eleitores que governará, pouco mais de 6 milhões. Além disso, desfez em parte a imagem da festa da “fominha”, abrindo espaço para aliados em cidades como Porto Alegre, Florianópolis e Belém. Na capital paraense, indicou o deputado do prefeito eleito, Edmilson Rodrigues (PSOL). O fato de a base de comparação ser com 2016 não serve de muito alento, porém, porque representou o fundo do poço para a festa, no auge da Lava Jato. Num balanço publicado no seu site, a PT afirma que parte do resultado negativo se deve a uma ofensiva injusta que sofreu durante a campanha. “Nesse segundo turno, o Brasil viveu as eleições mais sujas de sua história, devido ao conluio de autoridades e da mídia hegemônica, fazendo o país voltar aos tempos da República Velha”, afirma o artigo. O senador Jaques Wagner (BA) questiona a avaliação de que o partido perdeu, e considera que o resultado foi “zero a zero”. “É claro que esperávamos que o desempenho fosse melhor. Mas certamente não é a catástrofe que alguns querem impor.” Houve uma série de dificuldades, diz Wagner. Um dos principais, diz ele, é o fato de Lula não ter podido fazer campanha pelo Brasil, como costuma acontecer em todas as eleições, por causa da pandemia. “Lula só fez gravações. Parte da nossa força é a rua, que foi fechada pela Covid”, diz o senador baiano. Outro ponto apontado como prejudicial ao PT foi a liberação de ajuda emergencial pelo governo federal, que favoreceu os que buscam a reeleição. “Quem está sentado na cadeira, no momento em que as pessoas estão doentes e com medo, e com a ajuda que chega, tinha uma condição privilegiada”, diz Wagner. O senador afirma que o PT errou ao lançar tantas candidaturas pelo país, o que gerou uma grande demanda pelo fundo eleitoral. “Acabou não sendo suficiente para todos.” O ex-presidente do partido, o deputado federal Rui Falcão (SP), diz que a eleição mostrou um PT resistente, mas que precisa fazer uma avaliação interna. “A eleição mostrou que o PT, mesmo atacado pela direita e pelas elites dominantes, não desapareceu. Ele continua vivo, embora deva passar por um equilíbrio autocrítico e reformas profundas”. Para Falcão, é fundamental reorganizar o partido e reduzir seu funcionamento. E, acima de tudo, a legenda não investiu pesadamente na agenda anti-Bolsonaro. “Faltava um entrelaçamento maior das questões locais com os problemas nacionais. Um confronto mais claro com Bolsonaro, seu governo e suas políticas.” O partido deve ter um debate interno sobre a eleição, no qual a estratégia eleitoral da liderança deve ser questionada. As chances de mudança de comando são mínimas, porém, porque a presidente do partido, deputada federal Gleisi Hoffmann (PR), tem o apoio de Lula e mais três anos de mandato. O ex-senador Aloizio Mercadante afirma que o maior perdedor da eleição foi o bolsonarismo, por não ter conseguido se firmar em um partido e não ter tido candidatos competitivos. Mas a esquerda também perdeu espaço, pondera. “O PT teve uma grande queda em 2016 e não conseguiu voltar ao que era. Continua a ser um imenso desafio para o partido ter a presença que teve”, diz Mercadante, presidente da Fundação Perseu Abramo, centro de estudos do PT. A primeira tarefa do partido, diz ele, é atrair sangue novo. “O PT precisa se abrir para trazer novas lideranças. Vai ter que se reestruturar”. Para 2022, o mais importante é que não haja “canibalização da esquerda”. Até porque, diz ele, o resultado municipal não será definidor para o nacional. “Tínhamos sofrido uma grave derrota nas eleições municipais de 2016, o golpe [impeachment de Dilma Rousseff], A prisão do Lula e fomos para o segundo turno na eleição presidencial [em 2018]”, diz Mercadante.