Em vídeo, família de meninas assassinadas no Rio mostra cena do crime e acusa PM – 12/12/2020


Testemunhas que presenciaram a morte das primas Rebecca Beatriz dos Santos e Emily Victória dos Santos, de 7 e 4 anos, atingidas a tiros enquanto brincavam em frente de casa, em uma comunidade de Duque de Caxias (RJ), na noite de 5 de dezembro, conteste a Polícia Militar e conte outra versão do crime em vídeos enviados com exclusividade para Twitter.

Imagens registradas por Maycon Douglas Santos, pai de Rebecca, mostram onde estavam as crianças e de onde saíram os tiros atribuídos à Polícia Militar por moradores e familiares ouvidos pela Polícia Civil. Segundo os investigadores, ainda não há previsão de reconstituição no local da morte.

Em nota, o PM diz apenas que os cinco homens do 15º BPM (Duque de Caxias) em patrulha no local não dispararam.

Em um primeiro registro, Maycon mostra o local de onde começaram os tiros da Polícia Militar, segundo relato dos moradores.

Esta era a visão do policial dentro [local da rua onde as crianças brincavam na calçada]. Esta é a rua onde tudo aconteceu.
Maycon Douglas Santos, pai de Rebecca

Em outro vídeo, ele apontou o local onde as crianças foram baleadas, com a ajuda do tio, que afirma ter presenciado tudo. “Foi aqui que minha filha foi baleada. Então ela caiu no quintal da minha avó”, disse ele. “Emily caiu na frente aqui. Não foi, tio?”

O homem então mostra a marca de tiro na grade da casa, filmada por Maycon. “Meu tio estava sentado aqui no momento. O tiro veio e para trás e atingiu minha filha lá no portão. E Emily aqui, olhe”, ele mostrou.

O especialista verificará se o projétil veio do rifle PM

A Polícia Civil confirmou ontem que o projétil fragmentado encontrado no corpo de Rebecca era um rifle. A bala será encaminhada a especialistas, para saber se veio de um dos cinco fuzis apreendidos com a Polícia Militar do 15º BPM.

O relatório elaborado por técnicos da Polícia Civil aponta que Rebecca foi atingida na região torácica. Ela teve o coração e o fígado afetados e morreu devido à “transfixação” dos órgãos. O projétil em análise estava alojado no fígado da menina.

Emily foi atingida na cabeça e morreu em consequência de “ferida transfixante no cérebro”, aponta o especialista.

Denunciar racismo e implorar justiça

Parentes dos primos revelam detalhes da tragédia e uma luta por justiça. Maycon, o pai da menina Rebecca, falou sobre o quanto ela sente falta dela. “Não queria ganhar uma indenização ou aparecer na televisão. Só queria brincar com minha filha.”

Ao chegar na UPA, recebeu a notícia de que as duas meninas já haviam chegado mortas à unidade. Mas ele não conseguia nem chorar sem ser abordado por um homem de uniforme. Ele disse que foi questionado como se suspeitasse apenas pela cor de sua pele.

Família de primos mortos a tiros enquanto brincavam em frente de casa chega para prestar depoimento na Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense

Imagem: Herculano Barreto Filho / UOL

“Ele perguntou: ‘Você é o pai?’. Em seguida, perguntou se eu tinha uma passagem [antecedentes criminais]. Eu disse não, nunca tinha. Eu sempre trabalhei. Eles [policiais militares] não pode me ver que já me dê uma moldura [abordagem policial]. Sofri tanto com o racismo que me acostumei. Eles não me pouparam mesmo depois da morte da minha filha “, disse ele.

Ana Lúcia Silva Moreira, mãe de Emily, lembra os momentos que antecederam a tragédia. Ela estava fazendo um lote de batatas fritas em casa quando se assustou com o som de tiros. “Saí para a rua e vi minha filha morta no chão. Só peço justiça. E estou lutando por ela.”

A avó de Rebecca e tia de Emily, Lídia da Silva Moreira Santos, disse que ouviu uma rajada de tiros logo após descer do ônibus. Em seguida, ele disse que viu policiais militares em um veículo saindo da rua onde ele mora.

Ela diz que encontrou os dois filhos. Emily estava morta na frente do portão. Adiante, ele viu Rebecca. “Ela deu o último suspiro no meu colo.”