‘Eu não acho que alguma mulher já me amou’

” Sou mesmo um contador de histórias ”, diz Lima Duarte, entre gargalhadas, ao ouvir que tem feito sucesso nas redes sociais. Semanalmente, no Instagram, o ator de 91 anos grava vídeos relatando os bastidores das novelas feitas em seus mais de 70 anos de carreira, cita histórias de sua vida privada, dá dicas de séries e livros e sempre encontra tempo para recitar Fernando Pessoa ou Rosa de Guimarães.

– Meus netos fazem de tudo, eu só converso. Conto porque há coisas que vi ou experimentei que podem ser interessantes para as crianças. Mas não tenho ideia de como essa web funciona. Vejo graça em algumas coisas, mas a verdade é que tenho pavor do virtual – diz o veterano.

As gravações acontecem no site de Indaiatuba, interior de São Paulo, onde a artista mora. O cenário varia entre a sala, que funciona como um museu privado (onde estão desde pôsteres de filmes que ele fez até roupas de personagens icônicos), e o jardim, próximo aos pássaros que ele gosta de alimentar. E Lima se distrai com tudo isso enquanto se prepara para começar a gravar, o quanto antes, a segunda temporada de “Aruanas”, da série Globoplay.

– Estou preso neste paraíso há um ano e não saio por nada. Eu ouço música e leio o dia todo. Também vejo novelas antigas. Gosto porque me lembro do que aconteceu além das cenas. Você não quer saber o que é, ou melhor, o que foram Globo Studios. Orgulho, egos, ódio, amor … – suspira.

É com esse espírito que o mineiro se emociona com o replay de “O salvador do país” (1989), no canal Viva, a partir de 12 de abril. Lima Duarte fez o cold-game Sassá Mutema no enredo que teve um fundo político ao mesmo tempo em que o país voltava a ter eleições diretas para presidente. O papel foi até comparado ao de Lula.

– É um personagem que merece um pouco de atenção. Agora é agronegócio, mas, no meu tempo, era pequeno negócio (risos). Plantei o que gostaria de comer. Não existia Brasília. E a novela falava daquele momento de transição do país. Sassá era um jardineiro que tocava nas flores e elas cresciam. Ele se tornou um político, isso foi perdido. Ele também era um homem que não sabia ler nem escrever e amava erroneamente a sua professora (vivida por Maitê Proença). É uma linda história.

Além dele, Lima gosta de destacar outros papéis que desempenham nas discussões políticas, como Zeca Diabo, de “O bem-amado” (1973); Sinhozinho Malta, de “Roque Santeiro” (1985), entre muitos outros. Nos vídeos, fala com carinho da amizade com o autor Dias Gomes e das críticas inteligentes que fez. Eles foram sócios do Partido Comunista Brasileiro, nos anos 1950. Na juventude, eles queriam denunciar as doenças do mundo.

– Eu sinto falta dos meus amigos. Muitos se foram … Ao mesmo tempo, não me lembro mais deles aqui.

Portanto, não é de se estranhar que o ator vá ao encontro das posturas do atual presidente do Brasil. Principalmente em relação às vacinas.

E mais:

– Eu penso em netos, filhos. o que aconteceu conosco? Pragas, tragédias, vírus, a presidência … Nossa Senhora, quantas bobagens e mentiras temos visto! Sem mencionar a grosseria brutal. O homem (Jair Bolsonaro) disse que a vacina da China não é boa. Mas estou me sentindo muito bem vacinada. E eu amo a sabedoria oriental – diz a artista, que já tomou as duas doses que previnem contra o coronavírus.

Romance cancelado pela censura

“Em 1975, a primeira versão de ‘Roque Santeiro’ foi proibida no dia da estréia, por causa do AI-5 (um duro decreto da ditadura militar). No dia seguinte, tivemos uma reunião na Globo, e Boni , disse a diretora: “Estão todos demitidos … A menos que preparem novela em 15 dias.” Eu não podia estar desempregada, tinha o colégio das meninas para pagar. Todos concordaram. Janete Clair, que era casada ao Dias Gomes, entregou a sinopse de ‘Pecado capital’. E a gente adaptou. Mas o Dias, que era louco pela vida com sua novela cancelada, me perguntou: ‘Ponha um pouco de Sinhozinho Malta no seu novo personagem’. Salviano Lisboa, ele aparece na fábrica com os funcionários cantando o hino, algo meio fascista. E que passou pela censura ”.

E mais:

Recusa de papel após 11 de setembro de 2001

“Onde você estava quando o mundo acabou novamente? Eu estava no Rio, em um hotel, porque tinha uma reunião para fazer a novela ‘O clone’. Quando vi a cena do ataque, as Torres Gêmeas caindo, fumaça por toda parte, fiquei pasmo. Decidi que não faria novela. Tive medo de que os terroristas me pegassem. Os diretores tentaram me tranquilizar, porque era um romance romântico. Foi bobagem minha, a novela foi um sucesso. Mas não fui eu ”.

Envolvimento com Maitê Proença

O romance “O salvador da pátria” cruzou a tela da TV e ganhou vida real. Lima e Maitê Proença tiveram um breve romance, dito por ele, negado por ela. Em entrevistas, a atriz cita o carinho e revela que encontrou apoio na colega quando estava passando pela doença do pai. “Maitê deve ter amado Sassá Mutema. Jogamos, nos divertimos, mas nunca mais a vi. A vida nos levou a outros lugares, mas sempre espero que ela seja feliz ”, diz. O ator, que já se casou três vezes, é econômico em comparação com outros flertes. “Sempre falei para as meninas terem cuidado comigo porque sou de Áries com ascendente Escorpião, mas não entendo Astrologia (risos). Acho que nenhuma mulher jamais me amou. Eu não me amo. Eu amo meus personagens ”.

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Memória que te faz chorar

Quando se trata de consertar histórias, Lima fica com a voz embargada ao ser convidado a citar sua primeira lembrança de vida. “Minha mãe era epiléptica. Aos 7 anos, eu ficava na cozinha, no chão de terra, ao lado dela. Uma vez, ela desmaiou e eu, chorando, tentei levantá-la. Naquela época não se sabia que foi uma lesão cerebral. “A pessoa ainda tem um ‘acesso’. Esse termo ainda me intriga. Acesso ao diabo, à alma, ao cérebro? Isso ainda é muito forte para mim hoje. Estas são as situações que formaram minha primeira infância. “

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