Explore a Amazônia: o Brasil revela seu novo e radical argumento de venda


Fotógrafo: Ricardo Oliveira / AFP / Getty Images

O ministro do meio ambiente do Brasil tem uma visão para a Amazônia – como um empreendimento lucrativo aberto aos negócios.

Em reuniões com gestores de fundos internacionais, Ricardo Salles apresenta a floresta tropical como uma nova oportunidade madura para investimento. Onde os conservacionistas veem uma região frágil com necessidade urgente de proteção, Salles vende uma imagem de empresas de cosméticos e farmacêuticas explorando a miríade de ervas, nozes e frutas exóticas da selva.

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“Temos que atrair capital privado para a Amazônia”, disse Salles, 45, em uma entrevista no mês passado em seu escritório em Brasília, um grande mapa das áreas de proteção ambiental do Brasil em uma parede e uma vista das copas das árvores da capital atrás dele. “Esta é a minha abordagem em todas as reuniões que realizo na Europa e nos EUA”

Entrevista ao Ministro do Meio Ambiente do Brasil, Ricardo Salles

Ricardo Salles está apresentando a floresta amazônica como uma oportunidade de investimento internacional.

Fotógrafo: Andre Borges / Bloomberg

Essa é uma proposta difícil para muitos, visto que a Amazônia está sob ameaça. Em junho, 29 gestores financeiros globais com US $ 3,7 trilhões em ativos disseram ao Brasil que o governo do presidente Jair Bolsonaro precisa provar que tem a destruição da floresta sob controle se quiser ver algum dinheiro. A derrota de Joe Biden de Donald Trump, um aliado do Bolsonaro, significa que Salles em breve enfrentará um governo dos EUA que promete “liderar o mundo na abordagem da emergência climática. ”

Salles não se intimidou. Embora seus planos tenham gerado inquietação em casa e no exterior, eles tipificam a atitude pouco ortodoxa de uma das autoridades ambientais mais controversas do mundo.

O Brasil abriga mais da metade da floresta amazônica, uma paisagem que contém uma em cada dez espécies conhecidas da Terra e que atua como sumidouro de cerca de 90-140 bilhões de toneladas de carbono, de acordo com o grupo de conservação World Wildlife Fund. Só isso já torna Salles um player global.

Mas com o desmatamento ocorrendo em uma taxa recorde, ele também é o primeiro na fila para condenar internacionalmente a resposta do governo à destruição.

Bolsonaro detonou a intromissão estrangeira na Amazônia e declarou a selva uma entidade soberana do Brasil. Mas o clamor global causado pelas imagens da floresta devastada forçou o governo a mudar de tom sobre as doações internacionais ao Fundo Amazônia.

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Um fazendeiro joga água em um fogo ilegalmente aceso na reserva da floresta amazônica, no estado do Pará, Brasil.

Fotógrafo: Carl De Souza / AFP / Getty Images

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Agora Salles diz que as portas estão abertas para investimentos externos que sejam “sustentáveis”, embora ele não tenha definido nenhum padrão verde para as empresas. “Não quero caridade”, disse ele. “Quero que você venha para investir na Amazônia, ter laboratórios, linhas de pesquisa e produção e fazer negócios com eficácia.”

Uma área de floresta tropical maior do que a Jamaica foi destruída nos primeiros sete meses deste ano, mais do que foi perdido em todo o ano de 2019, de acordo com o Instituto Nacional da Agência Espacial do Brasil. O dano não se limita ao Brasil – Bolívia, Peru e Colômbia também são afetados – mas o Brasil é o pior culpado de alguma forma. E a destruição está piorando sob o Bolsonaro.

A causa principal é o corte raso, muitas vezes por fogo, para fazer pastagens para gado e agricultura. Os incêndios significam que as emissões de dióxido de carbono do Brasil estão aumentando, mesmo que a desaceleração induzida pela pandemia tenha levado a uma queda mundial na produção de CO2. Bolsonaro culpa organizações sem fins lucrativos ambientais por iniciarem incêndios para chamar a atenção para sua causa. Salles argumenta que a pobreza é o maior fator de destruição e diz que a criação de riqueza é a resposta.

Amazônia brasileira queima em taxa recorde

O desmatamento para gado e terras agrícolas é a principal causa da destruição da Amazônia.

Fotógrafo: Leonardo Carrato / Bloomberg

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Nascido em São Paulo em uma família de advogados e educado em Portugal, Salles parece um membro da elite brasileira, em roupas de grife e óculos redondos de boutique. Ele fala metodicamente enquanto rebate os ataques a seu escritório como mal informado.

Há muito o que refutar.

Durante uma reunião de gabinete em abril, ele foi flagrado em uma fita que vazou dizendo que o governo deveria aproveitar a distração proporcionada pela pandemia para amenizar as leis ambientais. No mesmo mês, ele assinou uma medida que permitiria a atividade agropecuária em terras designadas como “de preservação permanente”, apenas para o Ministério Público bloqueá-las. Em setembro, ele retirou as proteções para manguezais e vegetação costeira. Novamente, o gabinete do promotor e, em seguida, a Suprema Corte frustraram seus esforços.

“Salles é um cupim que está comendo o ministério por dentro”, disse o ex-ministro do Meio Ambiente Carlos Minc.

Como integrante do governo esquerdista do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Minc não é imparcial. Mas ele também está longe de estar sozinho em sua avaliação. Em junho, todos os nove ex-ministros do meio ambiente vivos enviaram uma carta aberta ao Ministério Público Federal exigindo uma investigação sobre as ações de Salles.

Entrevista ao Ministro do Meio Ambiente do Brasil, Ricardo Salles

Salles foi nomeado ministro do Meio Ambiente pelo presidente Bolsonaro e anteriormente serviu como secretário do governador de São Paulo, Geraldo Alckmin.

Fotógrafo: Andre Borges / Bloomberg

“Quando o governo começou, Bolsonaro pensou em se livrar do ministério do meio ambiente”, disse Minc. “Talvez isso tivesse sido melhor.”

Salles, que se formou como advogado, foi envolvido em polêmicas logo após iniciar sua carreira política como secretário de Meio Ambiente do governo do Estado de São Paulo. Em 2018, a Justiça o considerou culpado de improbidade administrativa por alterar os mapas das matas ciliares de São Paulo em benefício de mineradoras. Salles está apelando da condenação.

Sua decisão de ordenar a remoção de uma estátua de um líder da resistência contra a ditadura militar brasileira chamou a atenção de Bolsonaro, um ex-capitão do exército, e em 2019 o presidente escolheu Salles para o gabinete federal.

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