Mãe conta a história de seu filho, que vivia na rua e acabou morto sob olhares indiferentes dentro de uma padaria em Ipanema


RIO – Ele tinha 7 anos quando deixou a bicicleta no quintal, abriu o portão de ferro da casa onde morava, no Jardim Gramacho, um dos bairros mais miseráveis ​​do Rio, e ganhou o mundo. Após sete meses de buscas, já grávida do sexto filho, Marlene Flauzino encontrou Carlos Eduardo Pires Magalhães vagando pela Praia de Botafogo com um grupo de crianças da mesma idade, todas com vidros quebrados nas mãos. Ela deu um abraço no menino e o levou para casa. Uma semana depois, ele desapareceu novamente. Foi o início de uma série de idas e vindas que culminou com a grande vantagem da rua. Foi nas calçadas que Carlos Eduardo acabou vivendo a maior parte de seus 39 anos. E foi no chão frio de uma padaria em Ipanema que ele acabou morto, na última sexta-feira, após pedir em vão ajuda.

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A vida de Carlos Eduardo, invisível aos transeuntes, a ponto de as pessoas continuarem tomando o café da manhã em frente ao seu corpo coberto de plástico preto, nem sempre foi tão transparente. Localizada nesta terça-feira pelo GLOBO, Marlene conta que seu filho foi apadrinhado pelos bombeiros do Botafogo quando tinha cerca de 10 anos. Ele fez o projeto do Botinho e frequentou uma escola:

– Ele aprendeu a nadar. Os bombeiros gostaram tanto dele que conseguiram um uniforme para Carlinhos. Até escola particular de Copacabana pagou. Não me lembro o nome, mas era Nossa Senhora de alguma coisa. Ele estudou até a 5ª série. Carlinhos me disse que era o único negro. Naquela época, sua casa era o quartel.


Marlene Alves Flauzino, mãe de Carlos Eduardo Pires Magalhães, morador de rua que morreu dentro de uma padaria em Ipanema, na última sexta-feira, descreve o filho como um ‘pássaro’. Segundo ela, Carlinhos só queria ser livre. A indiferença e a falta de assistência a Carlos Eduardo, que tossia sangue, a deixou indignada. Para ela, as pessoas que negaram sua ajuda são monstros

Não se sabe como a vida de Carlinhos foi mal, mas sua história, como a de tantas outras pessoas na rua, é também a de combate às drogas.

– Um dia, já mais velho, encontrou o caminho de casa e eu o repreendi por não ter notícias. Eu o pressionei no canto e perguntei se ele estava usando drogas. Ele me disse que era só maconha, mas eu sabia que tinha outras, como crack. Tomei banho, joguei desodorante nele e dei-lhe roupas limpas. Era o meu novinho Carlinhos, até que ele partiu de novo para o seu mundo – diz Marlene, emocionada. – Ele me disse: ‘mãe, eu gosto de liberdade como passarinho’.

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‘Eu queria te proteger’

Com base em sedativos desde que soube da morte do filho, que teria sido por tuberculose avançada, Marlene diz que ele não merecia a indiferença que sentiu em seus últimos momentos:

– Ele não era apenas mais um. Ele tinha uma família. Sempre fui atrás do meu filho, mas ele disse que queria ver o mundo. Eu queria te proteger dentro de casa. Talvez este tenha sido o meu erro.

Lembrança: Carlinhos ainda bebê Foto: Gabriel Monteiro / Agência O Globo
Lembrança: Carlinhos ainda bebê Foto: Gabriel Monteiro / Agência O Globo

“Ele não era apenas mais um. Ele tinha uma família. Sempre fui atrás do meu filho, mas ele disse que queria ver o mundo ”

Marlene Flauzino

Mãe de carlos eduardo

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A mãe de Carlinhos mora em uma casa humilde com quarto, sala, cozinha e banheiro, forrada com telhas de amianto, em um bairro pobre de São Gonçalo. Uma das filhas mora em uma residência vizinha para ajudá-lo. Com a saúde frágil, após quatro ataques cardíacos e três derrames (derrame), Marlene conta a última vez que falou com Carlinhos:

– A última vez que conversamos foi há um mês. Sempre perguntei se ele estava bem e ele disse que estava bem. Ele disse que era para eu me preocupar comigo mesmo, para cuidar de mim. Se eu soubesse de sua doença, o teria trazido aqui para cuidar dele. Eu mobilizaria meus filhos, genros e netos para buscá-lo. Eu estava em frente ao fogão preparando o arroz quando chegou a notícia. Minha filha me sentou no sofá e me deu água. Percebi logo que algo havia acontecido com o meu Carlinhos – diz ela com os olhos marejados.

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A família agora luta para libertar o corpo e reconstruir um pouco de sua história. Marlene conhece pequenas peças: ela diz que adorava Copacabana, que teve uma filha na rua, Maria Eduarda, e que se orgulhava de ter participado de um filme como figurante. São lembranças do filho que ela guardará junto com as duas únicas fotos dele que sobraram após uma enchente que atingiu a casa da família – Carlinhos ainda bebê e no batismo.

A irmã mais nova de Carlos Eduardo, Dandara Sampaio, vem enfrentando um verdadeiro caminho para a libertação do corpo. Segundo ela, assim que a família soube da morte, ela tentou encontrá-lo na padaria, do IML, até chegar ao Hospital Municipal Miguel Couto, no Leblon. Neste último, ele disse que um funcionário se recusou a dar informações.

– Não sabíamos o que fazer. Ainda não consegui ver meu irmão. Eu estava desesperado. O funcionário disse que ‘queria ir além dos limites que cabem em mim’. Eu disse a ela: ‘Não é isso. Eu só quero liberar o corpo do meu irmão e enterrá-lo! ‘Então fui à Clínica da Família, ali perto, para ver se conseguia algum documento dele. Eles não tinham nada, mas a assistente social me explicou como era o tratamento dele para tuberculose. Era como se estivéssemos coletando os pedaços de sua vida. Não queríamos que ele fosse enterrado na miséria – diz Dandara, sem entender por que o corpo de Carlos Eduardo não foi para o IML, já que ele estava morto.

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O director do Hospital Miguel Couto, Cristiano Chame, explicou que uma nova resolução permite ao Corpo de Bombeiros levar o corpo de uma pessoa, em casos não violentos, para hospitais. Lá, policiais coletam impressões digitais para fazer buscas no banco de dados do Detran para identificá-lo. É a polícia ou o pessoal do hospital que contactam os familiares das vítimas. No caso de Carlos Eduardo, Samu o levou para Miguel Couto e, como o guia de coleta de cadáveres ainda não era identificado, o próprio serviço teria que fazer um acréscimo e alterar o status para identificado. Outra possibilidade seria por meio de ordem judicial.

– Lamentamos a dor pela perda dessa família. Mas estamos presos à legislação. De qualquer forma, entramos em contato com Samu que indicou um médico para fazer a troca e identificá-lo para liberar o corpo para a família o mais rápido possível – explica Chame.

Para Marlene, tudo o que resta é enterrar seu filho:

– Amo todos os meus sete filhos, 38 netos e três bisnetos, mas o Carlinhos foi muito especial. Ele beijou minha mão! O que me dói é ver que ele poderia ter cuidado. Ele chegou à padaria se sentindo mal. Foi uma grande negligência. Pessoas sem alma. Você nem mesmo faz isso com um animal.