Mirtes está enojado porque o pai de Miguel não conseguiu entrar


Mirtes Renata de Souza Santana, mãe do menino Miguel, disse ter ficado chateada porque o pai da criança, Paulo Inocêncio da Silva, foi impedido de acompanhar a audiência de instrução sobre o processo de morte do menino, realizada hoje na 1ª Vara de Crimes Contra a Criança Adolescentes da Capital, na região central do Recife.

Miguel morreu ao cair do 9º andar de um dos prédios de condomínio de luxo Cais Maurício de Nassau, na capital pernambucana, no dia 2 de junho. Mirtes era empregada doméstica e tinha saído para levar o cachorro dos patrões para passear. Ela deixou seu filho aos cuidados do então empregador, Sari Mariana Gaspar Cortar Real, primeira-dama do município de Tamandaré (EDUCAÇAO FISICA). Sarí deixou Miguel sozinho no elevador de serviço do prédio, o menino se perdeu e acabou morrendo ao cair de uma altura de 35 metros.

Mirtes falou com o Twitter exclusivamente, após ser ouvido hoje pelo desembargador José Renato Bizerra, titular da 1ª Vara de Crimes Contra a Criança e o Adolescente da capital.

“Estou revoltado porque o pai do Miguel não conseguiu entrar, mas o pai e a mãe do Sérgio [Hacker] entraram ”, relatou Mirtes, citando Sérgio Hacker (PSB), prefeito do município e marido de Sarí. Hacker tentou se reeleger prefeito nas eleições deste ano, mas perdeu.

O ex-patrão de Mirtes passou a ser réu do crime de abandono de incapacitado, resultando em morte, com dois agravantes, que são os crimes cometidos contra crianças e em meio à calamidade pública, que é a pandemia do novo coronavírus.

Mirtes disse que Sarí também estava lá, mas não teve contato com ela, pois ficaram em quartos separados. A avó de Miguel, Martha Alves Santana, acompanhou a filha, por ser ela uma das testemunhas indicadas pelo Ministério Público.

A mãe de Miguel disse que prestou depoimento ainda pela manhã e que a audiência durou cerca de 30 minutos. “Para mim, [o depoimento] foi fácil. Eu só falei a verdade, e nada além da verdade “, disse ele Twitter, esta tarde.

Sarí não testemunhou hoje

A primeira audiência instrutiva sobre o caso Miguel foi encerrada no final da tarde no Cica (Centro Integrado da Criança e do Adolescente). Ao contrário do que se esperava, Sarí Côrte Real não foi questionado hoje. O TJPE (Tribunal de Justiça de Pernambuco) marcará nova data para a audiência do réu. Além disso, uma testemunha de defesa ainda não se pronunciou no tribunal.

Foram citadas nove testemunhas de acusação, indicadas pelo MPPE (Ministério Público de Pernambuco). Mas apenas oito foram ouvidos na 1ª Vara Criminal contra Crianças e Adolescentes da Capital, localizada no interior de Cica. O MPPE desistiu da nona testemunha, que seria ouvida por videoconferência. A defesa concordou com a retirada.

Da defesa, nove foram listados. Quatro foram ouvidos em juízo nesta quinta-feira e outros quatro testemunharão por precatório – segundo o TJPE, isso acontece quando há “testemunhas ou partes processuais residindo em outra região, de diferentes cidades ou estados”. O nono, que também é testemunha de acusação, testemunhará pessoalmente como defesa na mesma data do interrogatório de Sarí.

Antes de iniciar a audiência, familiares, amigos e pessoas ligadas aos movimentos sociais e aos direitos humanos fizeram uma manifestação pacífica em frente à Cica. A Polícia Militar enviou 16 policiais para permanecer no local para conter possíveis distúrbios.

Em entrevista ao Fantástico, da Globo, em julho, Sarí Côrte Real disse que foi alvo de perseguição e tem medo de ser linchado.

“Terrível [os dias]. Moro no psiquiatra, preciso de remédio para dormir. As pessoas me julgaram antes que o Tribunal até me julgasse, eu nem tive tempo de me defender. Hoje não posso sair na rua, tenho medo de ser linchada. Não posso correr, não posso fazer nada. Hoje estou numa prisão dentro de minha casa ”, relatou.