No Brasil, os jovens se tornaram os principais alvos da variante

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Os médicos intensivistas do Brasil têm visto cada vez mais pacientes jovens chegando às suas enfermarias nos últimos meses, sendo um em cada dois com menos de 40 anos. A nova variante brasileira mais contagiosa, conhecida como P1, parece estar afetando pessoas mais jovens, sem comorbidades pré-existentes.

Mais da metade dos pacientes internados em unidades de terapia intensiva brasileiras em março tinha menos de 40 anos, segundo a Associação Brasileira dos Médicos de Reanimação. A variante Covid-19 mais contagiosa, conhecida como P1, está fazendo vítimas mais jovens todos os dias, muitas sem problemas médicos anteriores.

Entre janeiro e março, o número de mortos entre 30 e 39 anos aumentou 353%, de acordo com o último relatório do Observatório Covid-19. Na sede do instituto médico da Fiocruz, a pneumologista-chefe Margareth Dalcolmo, que coordena o estudo da nova variante, diz que não passa um dia sem ver números mais alarmantes. E uma pergunta chave: por que a variante brasileira causa mais vítimas entre os jovens?

Dalcolmo e seus colegas já têm algumas pistas. “O perfil dos pacientes gravemente enfermos mudou. Em primeiro lugar, por causa da evolução da pandemia e da falta de medidas de bloqueio, vemos cada vez mais jovens nas ruas. São eles que têm que ir trabalhar e que não podem aguentam mais a ausência de vida social. Por isso, encontram-se nos bares ”, afirma.

Em suma, diz Dalcolmo, não é que a nova variante prefira os jovens, mas são os jovens que saem e, portanto, ficam mais expostos.

A pobreza generalizada também provou ser um fator chave. Um subsídio mensal do governo de cerca de € 50 por família, introduzido no início da pandemia, é muito baixo para atender às necessidades das famílias mais pobres. Diante dessa situação, as famílias da melhor forma possível: os avós ficam em casa para cuidar dos netos enquanto os pais se encontram ao ar livre, muitas vezes se reunindo nos transportes públicos em busca de trabalho, predominantemente informal.

“É fácil dizer aos jovens brasileiros: ‘Fiquem em casa’. Mas, na prática, e com 20% da população abaixo da linha da pobreza, eles precisam sair para ganhar a vida ”, diz Dalcolmo.

Para complicar ainda mais as coisas, o Brasil experimentou atrasos na implementação da vacinação devido a problemas de abastecimento e distribuição. Apenas cerca de 8 milhões de pessoas, ou 3,8% da população, foram totalmente vacinadas.

‘Não podemos parar de viver’

O presidente Jair Bolsonaro se recusou a introduzir medidas de bloqueio em todo o país. Portanto, cabe aos governadores de cada estado e prefeitos decidir por si próprios. Em um vasto país de 27 estados separados, tornou-se impossível ter uma política de saúde homogênea e coerente. Mesmo com o fechamento de São Paulo, bares e restaurantes do Rio de Janeiro puderam reabrir no último final de semana até as 21h.

Após 14 dias de fechamento forçado, as ruas da Lapa carioca estão animadas. Policiais civis que patrulham entre dois terraços lotados parecem preocupados. “Essa reabertura, acho que é o que faz com que a pandemia ganhe espaço”, diz o subchefe Gama. Nas últimas duas semanas, Gama e sua equipe monitoraram ou fecharam mais de 17.000 bares, reuniões sociais e festas underground.

A conta do Instagram @Brasilfedecovid (Brasil fede a Covid), que tem mais de 400 mil seguidores, publica regularmente vídeos e fotos de festas em salas lotadas ou em barcos. Os jovens foliões parecem estar desafiando o vírus que os impede de desfrutar de eventos como o Carnaval do Rio e um verão de sol.

Em uma praia bastante vazia do Rio sob o sol de abril, alguns jovens surfistas da Babilônia favela expõe sobre esta visão: “Não podemos deixar de viver. Já estamos arriscando nossas vidas por causa de balas perdidas ou batidas de policiais, e ainda por cima temos que ficar em casa, deixados para morrer, sem viver ou curtir o mar? Sabemos que o vírus está aí, mas também não podemos morrer em casa. “

Isso é o que preocupa a pneumologista Dalcolmo e suas colegas: Os jovens tendem a encarar os possíveis sintomas um pouco levianamente e acabam chegando ao pronto-socorro tarde demais. Muitos temem que o número de mortes em hospitais – que já disparou – esconda outra realidade: que cada vez mais brasileiros, por medo de ir ao pronto-socorro, estejam morrendo em casa.

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