No meio da pandemia, como podemos discutir a crise das mudanças climáticas?

Em 2015, durante a edição da Hora do Planeta, as luzes do Congresso Nacional foram desligadas por uma hora em Brasília (DF)
Foto: Elza Fiuza / Agência Brasil

A Hora do Planeta, que acontece a partir das 20h30 (horário de Brasília) de sábado (27), é um movimento global em que, por sessenta minutos, pessoas de todo o mundo apagam as luzes como forma de chamar a atenção para o crise climática e suas consequências. É um ato simbólico de angústia para o planeta. Mas como podemos tornar esse problema urgente em meio à pandemia Covid-19, que já matou mais de 2,5 milhões de pessoas em um ano?

Para especialistas ouvidos por CNN Brasil, o primeiro ponto é mostrar como as duas crises estão intimamente ligadas. Em seguida, envolva os governos e destaque a questão econômica no debate. E, por fim, apontar soluções para um “futuro verde”.

Este ano, a escuridão acontece pela segunda vez digitalmente por causa da Covid-19. O Festival Brasileiro da Hora do Planeta Digital contará com uma série de shows com Gilberto Gil, Fábio Porchat, Mauricio de Sousa, Ailton Krenak e o DJ Eric Marky Terena. A programação segue das 13h às 20h30, com transmissão ao vivo nas redes sociais WWF-Brasil.

O movimento começou em 2007, na Austrália, e vem conquistando mais adeptos a cada ano. Em 2020, a edição aconteceu em mais de 190 países e territórios, gerando 3,1 bilhões de impressões nas redes sociais, segundo o WWF, sendo um dos assuntos mais falados em 37 países.

Pandemia e desmatamento

“Todos os grandes problemas estão relacionados. O coronavírus surgiu de um desequilíbrio na natureza. Os impactos ambientais estão diretamente ligados à pandemia ”, afirma Luís Fernando Guedes, diretor de conhecimento da ONG SOS Mata Atlântica. “Ambos são sintomas de que o modelo que seguimos está com problemas. A falta de água, a pandemia e outros efeitos resultam da destruição da natureza além da sua capacidade de recuperação ”, acrescenta.

Não há estudos que comprovem a ligação direta entre o aquecimento global e o novo coronavírus, mas a comunidade científica identifica a ligação entre as mudanças climáticas e a forma como os animais se relacionam entre si e com os homens como um dos principais fatores da crise. atual.

Em julho de 2020, o Painel Multidisciplinar e de Especialistas da Plataforma Internacional para Biodiversidade e Serviços Ecossistêmicos (IPBES), uma organização independente criada em 2012 com membros de 94 países, examinou evidências científicas da origem, crescimento e impacto da Covid-19 e outras pandemias.

Havia 22 especialistas de todas as regiões do planeta discutindo como a pandemia surgiu. Entre os dados avaliados, eles concluíram que a maioria (70%) das doenças emergentes (ebola, zika, encefalite Nipah) e quase todas as pandemias conhecidas (Influenza, HIV / AIDS, Covid-19) são zoonoses causadas por micróbios de origem animal. Esses micróbios ‘transbordam’ por causa do contato entre animais selvagens, rebanhos e pessoas.

Ilustração de novo coronavírus
Representação gráfica do novo coronavírus. De acordo com um painel de especialistas, 70% das doenças emergentes e quase todas as pandemias atuais são derivadas de micróbios de origem animal, que “transbordam” devido ao contato excessivo entre animais selvagens, rebanhos e humanos.
Foto: Reprodução / Pixabay

Estima-se que 1,7 milhão de vírus não descobertos existam em pássaros e mamíferos. Destes, 631.000 a 827.000 podem infectar humanos. O reservatório mais importante de patógenos com potencial pandêmico são os mamíferos, em particular morcegos, roedores e primatas, algumas aves e gado (porcos, camelos e galinhas).

Ou seja, à medida que o planeta se aquece, representantes de todas as espécies migram em busca de lugares mais frescos – por água e ar. E passam a conviver com outras espécies e com humanos, transmitindo novas doenças. Além disso, as causas do aquecimento global são outras formas de aumentar o risco de pandemias: o desmatamento, por exemplo, também leva as espécies a mudarem de habitat.

“Para a população brasileira, a pandemia enfraquece quem já sofre com a fome e as desigualdades sociais causadas pelas injustiças climáticas. O uso abusivo dos recursos naturais e a concentração do poder econômico e político têm sido historicamente associados ao desmatamento e aos modelos produtivos que causam o aquecimento global ”, afirma Gabriele Yamaguchi, diretora da sociedade engajada do WWF.

Esforços do governo

A ONU (Organização das Nações Unidas) definiu o período de 2021 a 2030 como a “Década da Restauração dos Ecossistemas” – esta ainda em 2019, pré-pandemia. Europa, China e Estados Unidos, com a eleição de Joe Biden, já se comprometeram a criar mecanismos de governo que caminhem nessa direção. Brasil está atrasado.

Um exemplo claro de como a política governamental é fundamental para tornar a mudança climática central para um país é o que aconteceu esta semana no site da EPA, a Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos. A página de mudanças climáticas reapareceu no site da agência.

Joe Biden, Presidente dos Estados Unidos
Com a posse de Joe Biden, os Estados Unidos passaram a fazer parte do grupo, que também tem Europa e China, que se mobiliza para restaurar ecossistemas. Brasil está atrasado.
Foto: Reprodução / CNN (26 de janeiro de 2021)

Ele havia sido removido em 2017 por uma ordem do ex-presidente Donald Trump. Na versão atual, o texto atesta que “a crise climática é prioritária e restaura o papel da ciência”. Combater as mudanças climáticas não é opcional, é essencial no EPA, disse em um comunicado do novo chefe da agência, Michael Regan. Sinal disso é que Biden convidou nesta sexta-feira (26) Brasil, Rússia e China e outros 36 países para participarem de uma cúpula do clima, que será realizada virtualmente entre os dias 22 e 23 de abril.

No Brasil, o tema não é visto como prioritário – e não é novo. Ainda hoje, as lideranças, exceto por iniciativas pontuais, pensam no curto prazo, sem se preocupar em mudar a abordagem brasileira sobre o assunto de forma estrutural. De Belo Monte às queimadas na Amazônia, uma discussão profunda sobre as mudanças climáticas não tem sucesso nessas terras.

“O governo tem um fator didático. Você precisa estar à frente, implementando as políticas. Temos uma lei sobre mudanças climáticas desde 2009/10 ”, alerta André Lima, ambientalista, advogado e ex-secretário de Meio Ambiente do Distrito Federal.

Para a procuradora do Estado de Minas Gerais Monique Gonçalves, que recentemente participou da Comissão de Meio Ambiente do Senado e tem forte atuação nas causas jurídicas e ambientais, o problema está na mensagem que os governantes passam na agenda do clima. “O poder público não cumpre funções fundamentais. Sensibilização do público, por exemplo ”, analisa. “Na gestão atual, a ideia de desvalorizar a ciência ocorre também na questão ambiental. Não temos mais uma mudança climática. É uma emergência climática. ”

A dor no bolso

Uma forma de obrigar os governos e o setor privado a adotar medidas de combate às mudanças climáticas é por meio do aspecto econômico. Calcular os danos que o desmatamento e o aquecimento global trazem para os cidadãos, o caixa das empresas e o país pode ter o efeito que apagar as luzes muitas vezes não tem. Ou, ao contrário, o lucro que uma política ambiental consistente pode gerar.

Do lado do lucro, várias startups ligadas a tecnologias ambientais e ecológicas estão ganhando espaço, assim como tecnologias para limpeza de resíduos, para descontaminação. O conceito de economia circular está ganhando espaço na Europa e em alguns países da Ásia. Milhares de empregos foram gerados a partir de uma economia amiga do clima, adaptada às mudanças climáticas. “Há estudos que mostram que essa economia deve gerar US $ 3 trilhões no mundo até 2030”, diz Lima.

Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), a América Latina e o Caribe terão, nos próximos anos, 6 milhões de empregos relacionados às energias renováveis. O atual governo dos Estados Unidos, ao retomar o Acordo de Paris, se comprometeu a arrecadar US $ 20 bilhões em ações para o desenvolvimento sustentável da Amazônia. É o dinheiro e a possibilidade de trabalho que movimenta uma economia como a brasileira.

A questão é que o Brasil insiste em caminhar na direção oposta. Um dado publicado recentemente pelo Instituto Escolhas, fundado com o objetivo de qualificar o debate sobre sustentabilidade por meio da tradução numérica dos impactos econômicos, sociais e ambientais das decisões públicas e privadas, aponta para o subsídio do governo federal à cadeia da carne. Nos últimos 10 anos, os subsídios chegaram a R $ 123 bilhões.

Agora, o prejuízo: cada quilo de carne equivale a 145 quilos de CO2 na Amazônia legal. Em todo o país, 2 bilhões de toneladas de CO2 foram emitidos anualmente nestes 10 anos. As emissões da pecuária de corte foram responsáveis ​​por 14% dessas emissões. Assim, o governo brasileiro financia indiretamente o aquecimento global.

“O processo produtivo de nossas exportações não deve agravar o problema das nossas condições climáticas, principalmente a questão do desmatamento”, enfatiza Sérgio Leitão, diretor executivo do Instituto Escolhas. “Já está demonstrado que o estoque de terras que o país abriu, já desmatado, é suficiente para que o Brasil seja um grande exportador, que até dobra o volume de produção, sem ter que cortar mais árvores. Mas o Brasil não consegue se afastar desse processo. ”

Conseqüência dessa postura brasileira: os produtos daqui devem receber “selos negativos” por sua postura frente às mudanças climáticas, como a da Força-Tarefa de Divulgação Financeira Relacionada ao Clima, que já está sendo implantada na Europa e em breve será na China e nos Estados Unidos. EUA.

“O Brasil precisa fazer as transformações necessárias sob pena de sofrer graves perdas no comércio exterior nos próximos anos”, alerta Leitão. Para ele, apenas medidas financeiras restritivas, que impõem riscos à atividade bancária, podem trazer de volta a questão ambiental à pauta.

Mudanças comportamentais

Reavivar o debate sobre o clima na agenda pública requer, portanto, o envolvimento de diversos setores e a participação da sociedade. E a divulgação fundamental de boas perspectivas para um “futuro verde”.

“Temos que mostrar soluções para esta e outras crises. Muitas coisas boas estão sendo feitas no Brasil e no mundo para enfrentar as mudanças climáticas. A economia orgânica, das energias renováveis, o uso da biotecnologia, a chamada bioeconomia, a agroecologia, novos modelos de produção de alimentos, tudo isso está nascendo agora ”, exemplifica Lima.

O consumidor precisa estar atento para rever seus hábitos e escolhas de consumo. As famílias devem mostrar aos filhos novos hábitos menos nocivos ao meio ambiente. Para Gabrielle, do WWF, “não há uma resposta pronta quando o assunto é crise climática: precisamos do envolvimento de todos”.

Para Guedes, da SOS Mata Atlântica, força e poder estão na população votante, que paga imposto sobre o produto na prateleira. “Mesma história que Covid-19. Não adianta uma ONG propor uma solução. Todo mundo precisa usar sua máscara, para se isolar. ”“ Amanhã, o problema será maior. Nas mudanças climáticas, não há bloqueio ou vacina para resolvê-lo ”, acrescenta Lima.

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