O gado turva o caminho do Brasil para uma agricultura sustentável


Há três anos, a SLC Agrícola apostou em uma tecnologia que integrou câmeras infravermelhas ao seu maquinário para a aplicação de herbicida em suas vastas plantações de soja, algodão e milho.

Imediatamente, os resultados foram claros. As câmeras foram capazes de detectar ervas daninhas, que poderiam então ser mortas com uma dose precisa de herbicida, eliminando a necessidade do tipo de pulverização em massa que é onipresente na agricultura em grande escala. Com a nova tecnologia, o uso de herbicida pela empresa caiu 85%, reduzindo custos e tornando seus produtos mais atraentes para os consumidores.

“É uma forma muito eficiente de economizar produtos químicos, mas o mais importante é aplicá-los apenas onde são necessários – aplicar diretamente”, disse Aurélio Pavinato, presidente-executivo da SLC.

“Começamos com uma máquina, depois, há dois anos, compramos mais duas e depois mais 10. Todas as nossas fazendas agora têm essa máquina.”

A SLC é hoje reconhecida como uma das líderes em sustentabilidade no setor de agronegócio brasileiro – um baluarte da economia que cresceu em tamanho e estatura nos últimos anos graças à crescente demanda por seus produtos, principalmente da China.

Mudas de soja cultivadas pela SLC, que usa câmeras detectores de ervas daninhas para minimizar o uso de herbicidas © Ricardo Lisboa, para o FT

A agricultura já representa 22 por cento da economia brasileira e parece destinada a um futuro ainda mais brilhante, com previsão de aumento da demanda por alimentos à medida que a população global chega a 10 bilhões em 2050, de acordo com estimativas da ONU.

A produção de soja – usada para uma variedade de óleos e também para ração animal – ultrapassou 130 milhões de toneladas este ano, ante 75 milhões de toneladas há 10 anos. No mesmo período, a produção de milho quase dobrou para chegar a 105 milhões de toneladas, de acordo com dados oficiais.

As empresas do agronegócio do Brasil, no entanto, são vistas com suspeita pela comunidade internacional por causa dos vínculos históricos do setor com o desmatamento em biomas frágeis, como a Amazônia e o Cerrado, que delimitam o sul e o leste da floresta tropical.

Relatório especial: Brasil e seus biomas

Hoje, as atenções estão voltadas para os grandes produtores de carne do Brasil – empresas como JBS e Marfrig, que são regularmente acusadas de não conseguirem manter suas cadeias produtivas livres do gado criado em terras desmatadas. Os produtores de soja também têm sido criticados por ambientalistas por limparem terras para o cultivo.

Um amplo campo

A realidade, porém, é complexa. O Brasil é o maior produtor mundial de muitas commodities, incluindo açúcar, café e suco de laranja, que não estão intimamente associadas ao desmatamento que atualmente aflige o país. Mesmo os produtores de carne e soja abrangem um amplo espectro, desde grandes empresas como a SLC, que reconhecem o potencial econômico da agricultura sustentável, até pequenos agricultores, cuja falta de acesso à tecnologia e recursos muitas vezes resulta em uso mais destrutivo da terra.

“Não existe um setor de agronegócio monolítico no Brasil. Não existe ”, diz Juan Carlos Castilla-Rubio, presidente da Space Time Ventures, grupo com sede em São Paulo focado no desenvolvimento de inteligência artificial e tecnologias de robótica para a agricultura. “Tem o segmento ruim, principalmente na pecuária e pecuária. Depois, há um setor intermediário em termos de sustentabilidade, que tenta fazer o possível para respeitar as leis, mas não está em transformação. E depois há o setor avançado, que percebe que uma nova revolução é necessária. ”

Para Castilla-Rubio, a SLC se encaixa no último grupo. Uniu forças
com a Space Time Ventures para desenvolver a tecnologia de câmeras até o ponto em que robôs autônomos pudessem ser usados ​​para detectar ervas daninhas e drones enviados para matá-los.

Celso Moretti, presidente da Embrapa – um grupo governamental de pesquisa agrícola – diz que os avanços do Brasil na agricultura sustentável têm sido prejudicados pela má comunicação com o mundo exterior.

É um refrão comum entre executivos do setor, que temem que sua disposição de adotar novas tecnologias esteja sendo ofuscada no cenário mundial pela retórica do presidente Jair Bolsonaro, que regularmente faz aberturas aos pequenos pecuaristas e garimpeiros que tanto causam do desmatamento do país.

“Não estamos fazendo um bom trabalho em dizer ao mundo o que estamos fazendo da maneira certa, que é produzir com tecnologia e sem derrubar florestas”, diz Moretti, acrescentando que o desmatamento ilegal precisa ser combatido por meio da fiscalização federal nível.

“Não precisamos cortar uma única árvore. Não precisamos usar a Amazônia para exportar mais ou alimentar o mundo. Temos a tecnologia. ”

Solo superior

Grande parte dessa tecnologia é focada na melhoria da qualidade do solo para aumentar a produtividade e a sustentabilidade da terra. O Cerrado de 204 milhões de hectares já foi considerado impróprio para o cultivo, mas agora é o coração da produção de soja e algodão no Brasil, como resultado dos esforços para reduzir a acidez do solo e o conteúdo natural de alumínio.

Alguns produtores maiores também começaram o plantio direto, o que reduz as emissões de carbono e mantém a qualidade do solo por um período mais longo.

“Sem plantio direto, somos capazes de proteger a matéria orgânica do solo. E se você tiver uma boa rotação de culturas, o solo pode se recuperar ao mesmo nível que na natureza ”, diz Pavinato.

Outro desenvolvimento importante foi o cultivo de safras adequadas ao clima tropical do Brasil. Moretti ressalta que a soja é originária da China, mas foi trazida para o Brasil pelos Estados Unidos e depois geneticamente modificada para florescer no clima local.

“O fato é que no Brasil temos áreas que fazemos duas ou três vezes ao ano”, afirma. “Usamos cerca de 65 milhões de hectares de terra para produzir 257 milhões de toneladas de grãos e 67 milhões de toneladas de frutas e vegetais. E temos outros 50 milhões de hectares de pastagem degradada que podemos incorporar em nossa matriz de produção, para que possamos dobrar a produção de alimentos e fibras sem cortar árvores. ”

Problemas com cowboys

A mosca na sopa, no entanto, continua sendo a indústria pecuária – tanto por suas ligações com o desmatamento quanto por suas emissões de metano, um gás de efeito estufa produzido quando o gado digere seus alimentos.

Sob pressão de investidores internacionais, bem como de compradores na Europa, as grandes empresas de carne do Brasil estão correndo para implementar protocolos para garantir que suas cadeias de abastecimento estejam livres do gado criado em terras desmatadas.

Mas um problema claro permanece com as dezenas de milhares de fornecedores indiretos – fazendeiros que fornecem gado para os fornecedores diretos das empresas – que muitas vezes vivem em áreas remotas, longe do alcance de empresas como JBS e Marfrig. Ao contrário da indústria da soja, que usa contratos fixos, as vendas de gado operam em um mercado spot: a compra é fragmentada, para refletir a mudança na demanda do consumidor, e os pecuaristas podem facilmente vender para operadores menores e mais inescrupulosos se as demandas das grandes empresas de carne se tornarem muito onerosas.

“O maior desafio que temos no Brasil é controlar e rastrear toda a cadeia de abastecimento. Por que isso é tão difícil? Temos mais de 2,5 milhões de produtores ”, afirma Paulo Pianez, diretor de sustentabilidade da Marfrig.

“Como podemos acessar o [indirect suppliers]? Se eu colocar muita pressão sobre meu fornecedor direto para obter essas informações, eles simplesmente vão vender para outra pessoa. ”

Tanto a JBS quanto a Marfrig estão adotando o que chamam de abordagem “inclusiva”, oferecendo suporte à sua cadeia de suprimentos para ajudar os produtores a fazer melhor uso de suas terras para que o desmatamento seja desnecessário. Eles também estão usando tecnologia como blockchain para rastrear o ciclo de vida do gado, bem como satélites para vigiar o desmatamento entre os fornecedores.

Poucos ambientalistas, no entanto, foram convencidos, e a JBS em particular foi acusada de avançar muito devagar nessa questão.

Mas Pianez afirma que qualquer solução não está apenas nas mãos das empresas de carne.

“O que precisamos é que o governo implemente as regulamentações, os frigoríficos tenham todos o mesmo sistema de políticas, os varejistas só comprem carne dos frigoríficos com esses critérios e os investidores e bancos forneçam condições para que os produtores tenham os recursos necessários”, afirma.

“Acreditamos que só assim podemos mudar a realidade da pecuária no Brasil.”