Olimpíadas do Brasil vão fazer treinamento anti-racismo

Pela primeira vez, os brasileiros que representam seu país nas Olimpíadas passam por um treinamento anti-racismo, na tentativa de lidar com um problema arraigado que às vezes tem manchado o mundo do esporte.

O Comitê Olímpico Brasileiro lançou esta semana o curso online de 30 horas, que será obrigatório para todos os 650 atletas, técnicos, médicos, nutricionistas, dirigentes e demais integrantes da delegação do país aos Jogos de Tóquio em julho e agosto.

“O objetivo do curso é levar informação, conhecimento e também abrir um amplo debate sobre o racismo no esporte”, disse Rogério Sampaio, secretário-geral da comissão e medalha de ouro no judô nos Jogos de 1992.

“O racismo é estrutural … mas acreditamos que o mundo do esporte não pode tolerá-lo muito”, disse ele à AFP.

Cerca de 55% da população se identifica como negra ou parda no Brasil, o último país do Novo Mundo a abolir a escravidão – em 1888.

A desigualdade racial pode ser um assunto traumático e carregado no país de 212 milhões de habitantes, onde os brancos ganham quase 75% mais do que os negros em média.

O curso dará um panorama da história da desigualdade racial no Brasil, abordará como é o racismo no esporte e ensinará aos integrantes da delegação olímpica o que podem fazer se testemunharem ou forem vítimas dele.

Sampaio afirma que o Brasil é o primeiro comitê olímpico do mundo a lançar tal iniciativa.

Ele chama isso de “primeiro passo” para lidar com o problema.

“Sabemos que não é suficiente, mas é importante”, disse ele.

– ‘Sobrevivendo à opressão’ –

Incidentes racistas no esporte são notícia com uma regularidade perturbadora, apesar do impacto de movimentos como “Black Lives Matter” nos Estados Unidos e do ativismo de atletas de alto nível como Naomi Osaka e LeBron James.

No domingo, o time espanhol do Valencia saiu de campo durante uma partida da La Liga contra o Cádiz, depois que o jogador francês Mouctar Diakhaby disse que o adversário Juan Cala o insultou com uma calúnia racista.

O time francês do Nantes disse na terça-feira que o meio-campista Imran Louza havia recebido ameaças de morte e ataques racistas nas redes sociais após a última partida do clube.

Os clubes de futebol britânicos Swansea City e Glasgow Rangers disseram na quinta-feira que boicotariam as redes sociais por sete dias para protestar contra o abuso racial contra seus jogadores online.

O esporte brasileiro é regularmente abalado por incidentes racistas.

“Estamos vendo muitos casos por causa da internet … Essas coisas sempre aconteceram, mas antes a notícia não chegava tanto às pessoas”, disse a ex-ginasta brasileira e ex-olímpica Daiane dos Santos.

Dos Santos, 38 anos, foi ela mesma vítima de racismo no mundo da ginástica, esporte com poucos atletas negros e com notório histórico de incidentes racistas no Brasil.

A medalha de ouro de 2003 no Campeonato Mundial de Ginástica (exercício de solo) – primeiro campeão mundial de ginástica do Brasil – lembra de companheiros que se recusaram a treinar ao lado dela e de treinadores questionando por que uma negra queria ser ginasta.

“Isso me fez desenvolver um caráter, o que me ajudou a sobreviver a esse tipo de opressão”, disse ela à AFP.

Ela acha que o curso é uma ótima ideia – e necessária.

“Vamos punir aqueles que merecem ser punidos”, e tirar qualquer desculpa, disse ela.

A legislação brasileira prevê multas ou penas de prisão de até três anos para quem fizer calúnias racistas.

O Comitê Olímpico Brasileiro também tem o poder de multar ou punir atletas que violarem seu código de ética, que inclui regras contra comportamento racista.

raa / jhb / dj

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