Pacientes com lúpus não são imunes ao novo coronavírus


Feito em parceria com o Projeto Comprova. Leia mais aqui.

  • Conteúdo verificado: Postar na rede social Twitter sugerindo que pessoas com lúpus não “desenvolvem” covid-19.

É falso que as pessoas com lúpus não contraia Covid-19, como sugere uma postagem no Twitter. A postagem questiona por que os cientistas e a mídia não falam sobre isso, possivelmente relacionado ao fato de o tratamento do lúpus envolver a hidroxicloroquina, medicamento que, mesmo sem comprovação científica de eficácia contra o covid-19, ainda é utilizado e defendido. por partidários do presidente Jair Bolsonaro.

Comprova conversou com especialistas que afirmaram que a relação entre lúpus e covid-19 não é correta e que, embora a hidroxicloroquina seja eficaz no controle do lúpus, não interfere nos riscos dos pacientes de contrair ou não o novo coronavírus. Um estudo, coordenado por uma força-tarefa da Sociedade Brasileira de Reumatologia, e que está em processo de revisão por pares, a ser publicado, aponta que os casos de covid-19 entre pacientes reumáticos usuários da droga ocorreram no mesmo frequência. do que em pessoas que não usam hidroxicloroquina.

O lúpus é uma doença auto-imune rara que causa um desequilíbrio do sistema imunológico. A defesa imunológica se volta contra os próprios tecidos do corpo, como pele, articulações, fígado, coração, pulmão, rins e cérebro. A hidroxicloroquina, um dos principais medicamentos usados ​​no tratamento da doença, passou a ser eficaz contra os graves sintomas do covid-19 estudado, mas pesquisas realizadas em várias partes do mundo sugerem que a droga não tem efeito contra o novo coronavírus. A Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) e diversas entidades médicas brasileiras não recomendam o uso para pacientes com coronavírus, uma vez que não existem resultados científicos que comprovem a funcionalidade do tratamento.

Como podemos verificar?

Tentamos entrar em contato com a autora do post no Twitter, @ValeriaBNews, para verificar suas fontes sobre a possível ligação entre pacientes com lúpus e uma suposta “imunidade” ao novo coronavírus. O perfil não permite o envio de mensagens diretas, por isso enviamos perguntas através do perfil da mesma pessoa no Facebook e entrando em contato com uma livraria dela.

Como não tínhamos feedback até o final desta verificação, analisamos as respostas ao tweet original e vimos que a suposta ligação entre as duas doenças seria o uso contínuo da hidroxicloroquina – medicamento usado há décadas para tratar o lúpus.

Em seguida, buscamos informações de Verificações anteriores da Verova sobre a eficácia do medicamento no tratamento de covid-19, bem como relatórios sobre o assunto. Além disso, entrevistamos por telefone o reumatologista, professor da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP) e coordenador da Comissão de Lúpus da Sociedade Brasileira de Reumatologia, que nos deu explicações sobre a doença.

A Comprova realizou essa verificação com base em informações científicas e dados oficiais sobre os novos coronavírus e covid-19 disponíveis em 9 de dezembro de 2020.

Verificação

No tweet verificado, o usuário da rede social insinua que a mídia e os cientistas estão escondendo a informação de que pacientes com lúpus não desenvolvem covid-19 quando contraem o novo coronavírus. Essa relação não é verdadeira.

Lúpus

O lúpus, segundo o coordenador da Comissão de Lúpus da Sociedade Brasileira de Reumatologia, Edgard Reis, “é uma doença autoimune, em que o organismo passa a produzir anticorpos e substâncias inflamatórias que atacarão órgãos e tecidos do próprio corpo”. Normalmente, os “alvos” desses ataques são as articulações, algumas estruturas do sangue, o sistema nervoso central e os rins, e podem ser desencadeados por diversos fatores, como infecções ou desequilíbrios hormonais.

Como a hidroxicloroquina é usada em pacientes com lúpus?

Segundo o reumatologista Edgard Reis, a hidroxicloroquina é um medicamento usado há mais de 50 anos no tratamento de pacientes com lúpus para ajudar no controle da doença e no controle do sistema imunológico do paciente.

“Ele atua como um imunomodulador, vai ajudar a equilibrar o sistema imunológico do paciente. A hidroxicloroquina atua nas estruturas celulares, o que vai alterar o ph celular e interferir também nos mecanismos inflamatórios da doença ”, explica o médico. A droga bloqueia os receptores de algumas células e diminui a resposta inflamatória.

Que benefícios a hidroxicloroquina traz para esses pacientes?

Há muita segurança dos especialistas em relação aos benefícios que a hidroxicloroquina confere aos pacientes com lúpus. Segundo Edgard Reis, a medicação diminui a chance de a doença acontecer e a frequência dos sintomas, além de melhorar as lesões cutâneas e os sistemas articulares. Também minimiza a evolução das sequelas da doença e o risco de morte do paciente.

“Ou seja, aquele paciente com lúpus que usa hidroxicloroquina vive mais do que aquele que não usa”, diz Reis. A hidroxicloroquina também melhora o perfil do colesterol, proporciona melhora da glicemia, diminui o risco de trombose e melhora a ação de outras drogas. “Ele age sinergicamente com outros medicamentos. A hidroxicloroquina, junto com outros medicamentos, também ajuda a controlar melhor a doença. Então, é um medicamento muito importante, é um medicamento âncora, um medicamento baseado no tratamento da doença, a menos que o paciente tenha contra-indicações para seu uso ”, acrescenta.

Segundo o professor da Unifesp, essas contra-indicações são poucas e não absolutas, e estão mais ligadas a problemas cardíacos e oculares muito específicos. Segundo ele, porém, é necessário um acompanhamento com reumatologista e avaliações periódicas sobre o uso de qualquer medicamento relacionado ao tratamento do lúpus.

Pacientes com lúpus são menos propensos a contrair covid-19?

Não. Apesar de todos os benefícios da hidroxicloroquina no controle do lúpus, ela não interfere no risco de que esses pacientes possam ou não contrair covid-19. Os próprios especialistas da área de reumatologia estavam curiosos, no início da pandemia, para saber se a hidroxicloroquina protegeria de alguma forma os pacientes que usavam o medicamento.

“Lá no início da covid, também ficamos curiosos: os pacientes com lúpus, que já usam hidroxicloroquina, teriam menos risco de contrair covid-19? E, ao contrair, teriam doença menos grave? Os estudos mostraram que não. Eles têm a mesma chance de contrair cobiça e não têm uma doença menos grave com o uso da hidroxicloroquina. Então, isso fica muito claro para nós na literatura ”, diz Edgard Reis.

O estudo que apontou esses resultados se chama Mario Pinotti 2 e foi desenvolvido por uma força-tarefa da Sociedade Brasileira de Reumatologia (SBR) com mais de 10.000 brasileiros com doenças reumáticas autoimunes – como lúpus, artrite reumatoide e síndrome de Sjögren – e sua Contatos. O estudo foi realizado em nove estados brasileiros e no Distrito Federal, incluindo 97 cidades e com a participação de quase 400 alunos voluntários de medicina.

Das 10.000 pessoas avaliadas, 5.166 eram portadores de doenças reumáticas em uso de hidroxicloroquina há mais de 5 anos e 4.423 contatos domiciliares, ou seja, pessoas que não usam a droga e convivem com pacientes reumáticos. Dos participantes, 169 pacientes reumáticos apresentavam covid-19, equivalente a 4,03% do universo pesquisado. Entre os contatos, que serviram de comparação, a proporção de infectados foi de 3,25%, o que representou 124 pessoas. Os resultados indicam, portanto, que o uso de cloroquina ou hidroxicloroquina não protegeu ou preveniu formas graves de covid-19 entre aqueles que usaram a medicação. Os dados da pesquisa foram repassados ​​ao Comprova pela coordenadora da Comissão de Lúpus da Sociedade Brasileira de Reumatologia, que explicou que a mesma ainda não foi publicada e está em processo de revisão por pares.

“Ao longo dos anos, sabemos muito sobre o perfil de segurança da hidroxicloroquina para lúpus, que muitas vezes é conflitante ou não é semelhante ao perfil de segurança dos pacientes covid-19, onde a hidroxicloroquina foi testada e não foi eficaz”, diz Reis.

O que o especialista diz é que os cenários são diferentes para o uso do medicamento e que mesmo a dose testada para o covid-19 é diferente daquela usada em pacientes com doenças reumáticas. “A Covid-19 tem um estado inflamatório agudo, único da própria doença, que é único, ou seja, é diferente do estado inflamatório crônico que temos em algumas doenças autoimunes. E, frequentemente, em covid-19, você faz uso concomitante com vários outros medicamentos que podem levar a uma interação medicamentosa que pode levar a eventos adversos. Sabemos os benefícios da hidroxicloroquina no lúpus, mas sabemos que não é protetora para o covid-19 ”, conclui.

Em publicação oficial na internet, assinada por Edgar Reis, a Sociedade Brasileira de Reumatologia orienta pacientes com doenças reumáticas sobre o uso de cloroquina e hidroxicloroquina e alerta que o quadro de covid-19 é bem diferente.

O uso de hidroxicloroquina no tratamento de covid-19 tem sido apontado como ineficaz há alguns meses. A OPAS, braço da Organização Mundial da Saúde na América, não recomenda o uso do medicamento para pacientes com o novo coronavírus, por falta de resultados científicos que comprovem a eficácia e segurança do tratamento. A Comprova também demonstrou que não há tratamento prévio para covid-19 é aquele o uso de hidroxicloroquina não é capaz de diminuir a gravidade da doença.

Por que investigamos?

Em sua terceira fase, o Projeto Comprova verifica conteúdos duvidosos relacionados às políticas públicas do governo federal e à nova pandemia do coronavírus.

No caso do covid-19, é fundamental que as informações sejam claras e possam orientar a população sobre a doença e formas de minimizar os riscos de contágio. Ao relacionar o uso de um medicamento sem eficácia comprovada a uma suposta “imunidade” à doença, o autor do post – que teve quase 5 mil interações no Twitter – desinforma sobre os riscos associados à infecção e à falta de tratamento. Como resultado, a postagem pode atrapalhar os esforços das autoridades para conter a propagação da doença.

A Comprova já verificou outros conteúdos que continham informações falsas sobre o covid-19 e formas de prevenção da doença, como postagem que sugeria que o uso de máscaras poderia causar o acúmulo de fluido nos pulmões é o vídeo que afirma que as vacinas contra o novo coronavírus são uma tentativa de diminuir a população.

Falso, para Comprova, é o conteúdo inventado ou que passou por edições para mudar seu significado original e disseminado deliberadamente para espalhar mentira.