PIB 3º trimestre: veja atividades que retomaram os níveis pré-pandêmicos e aquelas que ainda acumulam perdas | economia


Entre os destaques da recuperação estão os indústria é o comércio, com ambos eliminando as perdas do período mais agudo da pandemia. Na outra ponta, o setor de serviços continuou lutando para voltar à normalidade, especialmente as atividades que exigem contato direto ou são baseadas na mobilidade das pessoas, como turismo, lazer e alimentação fora de casa.

Do lado da demanda, o consumo das famílias e os investimentos aumentaram novamente no 3º trimestre, mas a reação foi insuficiente para um retorno ao padrão pré-Covid-19.

Por um lado, o Auxílio Emergencial foi fundamental para ‘segurar’ a economia e apoiar os trabalhadores que de repente se viram sem renda, o aumento do desemprego, a incerteza sobre o futuro e a alta dos preços dos alimentos forçaram o brasileiro a consumir menos e também inibiu novos investimentos das empresas.

Veja a seguir o comportamento dos principais componentes do PIB no 3º trimestre e as perspectivas para os principais setores da economia:

Serviços seguem na lanterna

O setor de serviços, que tem peso superior a 70% no PIB brasileiro e mais emprega, continua sendo o mais afetado pela pandemia, principalmente os segmentos voltados às famílias, que demandam maior mobilidade e que naturalmente envolvem aglomeração como o lazer e recreação.

Pesquisa mensal do IBGE, que acompanha apenas parte das atividades, mostrou que o volume de serviços no país encerrou setembro em patamar ainda 8% inferior ao de fevereiro, com várias filiais ainda não operando a plena capacidade, por conta de restrições sanitárias ou mesmo alterações padrões de consumo e prioridades familiares.

Entre as atividades que continuam sofrendo e com demanda bem abaixo do padrão pré-pandêmico, estão hotéis, transporte aéreo, bares e restaurantes, cinemas, ensino particular e atividades associadas ao lazer.

“As famílias ainda não estão consumindo esses serviços da mesma forma que antes da crise, e acredito que em 2021 também não o farão. Esses serviços estão se reinventando para sobreviver, mas com capacidade limitada, distância e redução de produtividade ”, destaca Luana Miranda, economista do Ibre / FGV.

Em setembro, o atendimento às famílias ainda estava 36% abaixo do nível de fevereiro. As exceções para avanço no ano, segundo o IBGE, foram os serviços de tecnologia da informação e de intermediação financeira, em meio ao aumento da demanda por serviços e ferramentas online. Veja a tabela abaixo:

O setor de serviços ainda não eliminou as perdas da pandemia – Foto: Economia G1

Móveis, eletrodomésticos e cimento são destaques no comércio

O comércio, que também inclui o PIB de serviços, tem sido o destaque positivo da recuperação do setor, favorecido pelos pagamentos de Auxílios de Emergência e pelo crescimento das vendas pela Internet.

De acordo com levantamento mensal do IBGE, o varejo brasileiro registrou o quinto aumento consecutivo em setembro, eliminando não só as perdas causadas pela pandemia, mas também no ano.

Mesmo no varejo, porém, as agências não mostraram o mesmo ritmo de recuperação. A retomada foi impulsionada por itens essenciais como alimentos e artigos farmacêuticos e de perfumaria. Porém, as mudanças nos hábitos de consumo e a maior permanência das famílias dentro de casa também aumentaram as vendas de móveis, eletrodomésticos e material de construção.

Por outro lado, segmentos como tecidos, vestuário e calçados, combustíveis, automóveis e livros e papelaria seguem no vermelho acumulado no ano até setembro. Veja o gráfico abaixo:

Vendas do trade no ano, por atividade – Foto: Economia G1

Indústria reage, mas ainda acumula prejuízo no ano

O setor industrial também reverteu as perdas no 3º trimestre com a fase mais aguda da pandemia. Em setembro, o nível de produção superou em 0,2% o de fevereiro, antes de paralisações nas fábricas e medidas de isolamento para conter o coronavírus.

A indústria também foi o principal destaque na geração de empregos formais no trimestre.

A recuperação, porém, ainda não está completa porque o setor já enfrentava dificuldades antes mesmo da crise trazida pela Covid-19. Com isso, a indústria brasileira ainda acumula prejuízo no ano.

Dos 26 setores industriais monitorados pela pesquisa mensal do setor do IBGE, apenas 6 registraram crescimento no acumulado do ano até outubro, com destaque para produtos alimentícios, derivados de petróleo, perfumaria e limpeza, farmacêutica e celulose.

O pior desempenho é de empresas das categorias de bens de consumo duráveis ​​e bens de capital, que incluem a fabricação de máquinas e veículos, com perdas ainda na casa dos dois dígitos no acumulado de 2020.

“A indústria automobilística caiu muito por um duplo efeito complicador, que foi a pandemia e a questão argentina, já que o Brasil exporta muito para a Argentina”, observa Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, citando a recessão no país vizinho e a queda nas exportações.

Falta de matéria-prima dificulta retomada do setor

A construção civil, que também faz parte do cálculo do PIB industrial, foi um dos grandes destaques do 3º trimestre, com famílias aproveitando a pandemia para fazer reformas imobiliárias e com o mercado imobiliário impulsionado por cortes no básico taxa de juros, atualmente mínima. 2% ao ano.

De acordo com a Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), as vendas de novos imóveis cresceram 57,5% no 3º trimestre, em relação aos 3 meses anteriores. Nos primeiros nove meses do ano, o aumento foi de 8,4%.

“A construção foi uma surpresa. Era um segmento que parecia que ia derrapar, mas as pessoas continuaram comprando imóveis e a demanda por cimento cresceu mais rápido do que antes ”, diz Vale.

Agronegócio segue praticamente incólume

O agronegócio continua sendo um dos poucos setores que dificilmente foi afetado pela pandemia. O bom desempenho do ano tem sido sustentado pela safra recorde, preços elevados das commodities agrícolas e câmbio favorável aos exportadores.

Historicamente, os resultados do 3º trimestre são mais fracos do que os do 1º semestre, devido ao efeito estatístico de uma base de comparação mais elevada, mas vale lembrar que o agronegócio foi o único entre os 3 principais setores que registrou crescimento no primeiro metade do ano. ano.

“Os dados de bovinos e de aves diminuíram e também a produção de leite. Foi isso que levou a um número pior no 3º trimestre”, explica Miranda, acrescentando que a expectativa é de que o setor feche o ano com crescimento.

A safra de grãos deve atingir 252 milhões de toneladas em 2020, nível recorde e 4,4% acima da safra de 2019, segundo estimativa do IBGE.

O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) estima um crescimento de 1,5% do PIB da agropecuária em 2020 e de 1,2% em 2021.

PIB trimestral por setores – Foto: Guilherme Luiz Pinheiro / G1

O consumo das famílias – principal impulsionador do PIB brasileiro durante anos – apresentou recuperação parcial no 3º trimestre e foi sustentado principalmente por repasses do Auxílio Emergencial, que atingiu 67,7 milhões de pessoas, representando um gasto público inédito de mais de R $ 230 bilhões.

A grande dúvida agora é como a economia se comportará com a redução do valor do auxílio às famílias de R $ 600 para R $ 300 no último trimestre do ano e com a perspectiva de encerrar os programas lançados pelo governo para mitigar o impactos da pandemia.

Analistas ressaltam que a produção industrial e o varejo mostram perda de ritmo e que os indicadores de confiança indicam desaceleração do consumo nesta última reta do ano.

“Acreditamos que haverá uma acomodação no crescimento da atividade econômica no 4º trimestre, por isso projetamos uma queda do PIB mais próxima de 5% no ano do que de 4%”, diz Miranda.

A aceleração da inflação e do desemprego em níveis recordes também pesam nas perspectivas para o nível de consumo das famílias.

Incertezas inibem investimentos

A pandemia ainda descontrolada no país, a paralisação da agenda de reformas estruturais e as preocupações com a trajetória da dívida pública continuaram a abalar a confiança dos empresários e inibir os investimentos.

Os Investimentos (Formação Bruta de Capital Fixo) cresceram 11% no terceiro trimestre, após queda de 16,5% no trimestre anterior. No ano, a queda é de 5,5%.

“A preocupação fiscal é hoje o que tem impedido uma recuperação mais rápida da economia. O empresário que pensava em construir uma fábrica em 2021, pensa duas vezes ou avalia fazer o investimento em etapas”, diz Alex Agostini, economista-chefe da agência Sistema de classificação de risco da Austin Rating.

A taxa de investimento como percentual do PIB foi de 16,2% do PIB no terceiro trimestre, ante 16,3% no mesmo período do ano anterior. Em 2013, ultrapassou 21%.

Na leitura do mercado, o desequilíbrio das contas públicas pode levar a uma fuga de investidores do país e um consequente aumento antes do esperado para a taxa básica de juros, tornando mais cara a tomada de crédito pelas empresas e a credibilidade do país.

A retomada dos investimentos também inclui a agenda de privatizações e leilões de infraestrutura, cujo programa federal estagnou e se tornou uma promessa para 2021 e 2022.

“Vamos iniciar 2021 com uma economia que ainda será afetada pela pandemia, ainda não teremos uma vacina consolidada e com uma situação muito frágil do ponto de vista fiscal, do mercado de trabalho e do ambiente político”, afirma Vale. .

PIB na ótica da demanda – Foto: Guilherme Luiz Pinheiro / G1

PIB DO 3º TRIMESTRE DE 2020

Veja as últimas notícias da economia