Política brasileira atingida por onda de violência antes da votação de domingo


BRASÍLIA (Reuters) – Os brasileiros voltam às urnas em 57 cidades no domingo para o segundo turno das eleições municipais, que viram aumento da violência envolvendo assassinatos e ataques físicos a candidatos.

Em dois meses de campanha que antecederam o primeiro turno de votação em 15 de novembro, houve 200 assassinatos, tentativas de homicídio ou outros candidatos feridos, de acordo com a autoridade eleitoral brasileira TSE.

Isso se compara a 63 casos de violência política nos primeiros oito meses deste ano eleitoral, e apenas 46 casos nas eleições municipais anteriores de 2016, apurou o relatório da unidade de segurança e inteligência do TSE.

A violência sempre esteve presente na política brasileira, especialmente no “oeste selvagem” dos estados mais pobres do norte e do nordeste, onde poderosos proprietários de terras ocasionalmente recorriam a pistoleiros para resolver disputas políticas.

A violência chegou até o Congresso Nacional em Brasília. Em 1963, o senador Alagoano Arnon de Mello sacou uma arma da câmara para resolver uma desavença com um adversário, errou o tiro e matou outro senador.

Em 1993, o governador da Paraíba, Ronaldo Cunha Lima, matou a tiros seu antecessor por alegar que seu filho era corrupto.

Nos últimos anos, especialistas dizem que a violência se tornou mais generalizada em um Brasil polarizado, onde mais armas estão disponíveis e novas organizações criminosas estão consolidando o poder em cidades como o Rio de Janeiro. Os riscos são maiores na política local, onde os crimes costumam ficar impunes, disse Felipe Borba, que acompanha a violência eleitoral na Universidade Federal do Rio de Janeiro.

“Em distritos menores há confronto direto entre rivais locais. O vencedor leva tudo e perder o cargo significa que você não tem nada ”, disse ele em uma entrevista.

Ele apontou para dois assassinatos em um dia. No dia 24 de setembro, três dias antes do início da campanha, um candidato a vereador no estado de Minas Gerais, Cássio Remis, do centrista Partido Social Democrata Brasileiro, foi assassinado com cinco tiros em um assassinato público captado por câmeras de segurança. No mesmo dia, em Pernambuco, outro candidato Valter do Conselho, do partido de centro-direita Democrata (DEM), também foi morto a tiros.

A violência está prejudicando todas as partes, incluindo a direita e a esquerda.

Quatro dias antes da votação de 15 de novembro, no subúrbio carioca de Nova Iguaçu, o candidato local do DEM Domingo Cabral foi morto a tiros por encapuzados em um bar. Na véspera, Mauro da Rocha, do Partido dos Trabalhadores Cristãos, foi assassinado na mesma cidade.

A violência continuou mesmo após o fechamento das urnas. Edmar Santana, do partido de direita Patriota, que acabava de ser eleito vereador substituto em Sumaré (interior de São Paulo), morreu crivado de balas disparadas por um homem que passava em uma motocicleta.

“No Rio existe um padrão. A violência política envolve principalmente o crime organizado, o tráfico de drogas ou grupos de milícias paramilitares ”, disse Borba.

Muitos assassinatos políticos continuam sem solução, especialmente no interior do país, onde reina quase a impunidade, disse ele.

Mesmo casos importantes não são totalmente resolvidos, como o assassinato em 2018 da vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco, uma política em ascensão do partido PSOL de esquerda, e seu motorista.

Apesar da pressão doméstica e internacional, a polícia até hoje só prendeu o atirador, o ex-policial militar Ronnie Lessa, mas não o autor intelectual por trás do assassinato político recente de maior perfil no Brasil.

Reportagem de Lisandra Paraguassu, Escrita de Anthony Boadle; edição por Diane Craft

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