Por que nunca chega aos brasileiros?


Pouco mais de dez meses após a identificação do Sars-CoV-2, o coronavírus que causa a atual pandemia, o mundo já tem sua primeira vacina testada e aprovada.

O Reino Unido anunciou ontem que o imunizante BNT162b2, desenvolvido pelas farmacêuticas Pfizer e BioNtech, está lançado para uso no país e começará a ser aplicado nos cidadãos a partir da próxima semana.

E brasil? Temos alguma perspectiva de utilização deste produto em nosso país? Pelas informações divulgadas até o momento, não há definição e existe o risco de ficarmos sem acesso a ela.

As declarações feitas nos últimos dias por representantes do governo colocam um grande questionamento sobre a disponibilidade dessas doses para os brasileiros.

Desafio logístico

Sem falar em nenhuma farmacêutica em particular, o Ministro da Saúde, General Eduardo Pazuello, criticou as promessas feitas por alguns produtores de vacinas esta manhã, em entrevista coletiva.

“São pouquíssimos os fabricantes que têm quantidade e um cronograma de entrega eficaz para o nosso país. Quando chega ao final das negociações e vai para entrega e fabricação, os números são escassos. É um número grande que se reduz a um, dois, três empresas. A maioria tem números muito pequenos para o nosso país ”.

O discurso vai ao encontro de outra manifestação feita nesta terça-feira por Arnaldo Medeiros, secretário de Vigilância em Saúde do ministério. O representante disse que o Brasil vai priorizar imunizantes que se adaptem à infraestrutura de salas de vacinas de todo o país.

“Fundamentalmente que ela [a vacina] ser termoestável por longos períodos, em temperaturas de dois a oito graus. Por quê? Porque a nossa rede de frio, nos 34 mil quartos, é montada e instalada em aproximadamente 2 ° C a 8 ° C. ”

Posteriormente, em vídeo publicado no canal do Ministério da Saúde no Youtube, Medeiros destacou que nenhum dos concorrentes mais avançados é eliminado da lista de opções do governo.

“É extremamente importante informar à população brasileira que o Ministério da Saúde, por meio do Programa Nacional de Imunizações, não descarta nenhuma vacina. O que queremos é uma vacina registrada na Anvisa e que tenha a eficácia e segurança necessárias”.

Mas o que isso tem a ver com o produto Pfizer / BioNTech recentemente aprovado no Reino Unido? A grande polêmica é que suas doses precisam ser armazenadas a -75 ° C, temperatura que exige equipamentos especiais. Esse requisito pode dificultar o transporte e a entrega de doses em regiões mais remotas com pouca infraestrutura.

Outros candidatos, como Sputnik V, CoronaVac e os produtos desenvolvidos pela AstraZeneca / Oxford University ou Johnson & Johnson, requerem refrigeração que varia entre 2 ° C e 8 ° C, valor facilmente obtido por refrigeradores convencionais.

O que dizem os fabricantes

Por meio de nota enviada à imprensa, a Pfizer deu sua versão sobre os fatos e denúncias. A empresa afirma ter um plano logístico detalhado e ferramentas para transporte, armazenamento e monitoramento das doses na temperatura recomendada.

“Compreendendo os desafios que alguns programas de vacinação podem enfrentar, a Pfizer desenvolveu uma embalagem inovadora em caixas nas quais a vacina pode ser armazenada a -75 ° C por 15 dias em gelo seco.”

A empresa também defende que sua vacina, cujos resultados já foram encaminhados para análise da Anvisa, Agência Nacional de Vigilância Sanitária, pode ser mantida em geladeira comum por até cinco dias. “Isso viabiliza a vacinação, principalmente na atual situação em que se pretende vacinar o maior número de pessoas em um curto espaço de tempo”.

Por fim, a nota destaca que outros países da América Latina com condição semelhante ao Brasil, como Chile, Peru, México, Panamá e Costa Rica, já firmaram contratos de compra e estão em condições de operacionalizar a aplicação de doses desde o início de 2021.

Em entrevistas recentes, o CEO da farmacêutica no Brasil, Carlos Murillo, disse que tentou várias vezes falar com o Ministério da Saúde ao longo do segundo semestre de 2020 para negociar a venda antecipada de doses desta vacina contra o covid-19 . Segundo o executivo, o governo não respondeu aos contatos.

Mais recentemente, aconteceram algumas reuniões entre o governo e a empresa, mas não há definição até o momento sobre a compra de unidades do imunizador ou eventual transferência de tecnologia.

Portanto, mesmo que o Brasil feche um acordo com a Pfizer e a BioNTech nos próximos dias ou semanas, ficará bem atrás da fila. A prioridade de entrega dos primeiros lotes será para as nações que anteciparam seus pedidos.

A disponibilidade deste imunizador em clínicas privadas ao longo de 2021 também é remota. Afinal, a manufatura estará 100% focada em atender às necessidades de governos em todo o mundo.

Falta de estrutura?

Outro lado que se manifestou nas últimas horas foi o Conselho Nacional de Climatização e Refrigeração, que reúne as 15 maiores entidades do setor no Brasil.

Por meio de nota, a agência garante que o país tem capacidade para fornecer a tecnologia necessária para o armazenamento das doses de eventuais vacinas, mesmo que precisem ficar a -75 ° C:

“É preciso esclarecer que o Brasil tem uma cadeia de frio forte, com inúmeros fabricantes no território nacional, com tecnologia disponível. Além disso, o setor de serviços conta com profissionais com robusto conhecimento para instalações de baixíssima temperatura, tanto que as instalações criogênicas são presente há muitos anos no Brasil. Por isso, o setor de frio nacional pode adaptar a infraestrutura e fornecer soluções para qualquer temperatura, inclusive -70 ° C, com planejamento e investimentos. ”

O que resta para o Brasil?

Desde que os primeiros candidatos evoluíram para a fase 3 da pesquisa, última etapa antes da aprovação, o mundo passou por uma verdadeira disputa, em que cada país planejou garantir as doses de uma ou várias empresas farmacêuticas.

Algumas nações preferiram diversificar suas apostas – afinal, se um imunizador se saísse mal nos testes clínicos, haveria outras opções de reserva.

O Canadá é o melhor exemplo disso: o acordo que os governos deste país fizeram garantiu em média 9 doses da vacina para cada habitante, segundo informações compiladas pela revista The Economist. Logo atrás aparecem Austrália e Reino Unido, com cinco doses por pessoa.

Pelo contrário, o Brasil lançou todos os seus arquivos em parceria para aquisição e transferência de tecnologia da formulação desenvolvida pela AstraZeneca e Oxford University.

Outra fonte importante de imunizantes para o país é o Covax Facility, uma iniciativa da Organização Mundial da Saúde para distribuir algumas das vacinas para nações menos desenvolvidas.

Ainda existem alguns acordos feitos pelos Estados. É o caso do Paraná e da Bahia, que têm contrato firmado para receber futuramente o Sputnik V, do Instituto de Pesquisas Gamaleya, da Rússia.

O cenário é semelhante ao do CoronaVac, do laboratório chinês Sinovac, que fechou convênio com o Instituto Butantan, de São Paulo.

Etapas finais da corrida

Antes de aplicar qualquer vacina, é necessário que sejam divulgados os estudos preliminares de fase 3, que testam a eficácia e segurança do produto. Essa etapa já foi realizada por quatro concorrentes: Pfizer / BioNTech, Moderna, Gamaleya Research Institute e AstraZeneca / Oxford University.

Os três primeiros tiveram uma taxa de eficácia superior a 90%, considerada ótima. No caso da AstraZeneca / Oxford University, exatamente a aposta do Ministério da Saúde, houve um erro na condução dos testes clínicos. Isso levantou algumas dúvidas sobre os resultados e pode atrasar um pouco sua chegada.

Quando esse trabalho científico é concluído e atinge seus objetivos, os documentos e relatórios são encaminhados aos órgãos reguladores, que avaliam a veracidade dessas informações e decidem se a vacina pode ou não ser utilizada em determinado local. Aconteceu hoje no Reino Unido, o primeiro país a dar luz verde a uma vacina contra o covid-19 no mundo. No Brasil, o órgão responsável por esse processo é a Anvisa.

Uma vez liberado, o imunizador pode finalmente ser importado ou fabricado e distribuído para finalmente ser aplicado às pessoas.

Pelas informações mais recentes, o clima por enquanto é incerto: ainda não sabemos quais das vacinas serão realmente utilizadas no país. Isso vai depender do andamento das pesquisas e, claro, da negociação que será feita a partir de agora pelo Ministério da Saúde.